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Abscessos Hepáticos
Piogênicos |
|
Dr. Stéfano Gonçalves Jorge
INTRODUÇÃO
Os abscessos hepáticos são
conhecidos desde a época de Hipócrates. Em 1938, Ochsner e colaboradores
definiram o tratamento cirúrgico como o mais adequado. Com o advento dos
antibióticos, McFadzean e associados preconizaram a aspiração fechada
com antibioticoterapia para o tratamento dos abscessos solitários em
1953. Esse tratamento foi relativamente esquecido, e a drenagem
cirúrgica aberta continuou como o tratamento de escolha.
Com o aparecimento de novas
técnicas de diagnóstico por imagem, que permitiam a localização precisa
da lesão, desenvolveram-se nos anos 80 a aspiração e a drenagem
percutâneas guiadas por imagem.
FISIOPATOLOGIA
As bactérias piogênicas chegam ao fígado por vários caminhos. A doença do trato
biliar é responsável por grande porcentagem dos casos, e pode ocorrer por
obstrução maligna, benigna da árvore biliar, com colangite. Antes do advento dos
antibióticos, a disseminação, por via portal, de bactérias, ocorria na
diverticulite e apendicite. Na infância, ocorre mais freqüentemente por infecção
na veia umbelical. Disseminação via artéria hepática ocorre durante bacteremia
por endocardite, osteomielite ou outros. A disseminação por contigüidade permite
o acesso bacteriano ao fígado em abscessos subfrênicos ou pneumonias. Lesões
penetrantes permitem a infecção direta.
|
Etiologia
( 83 casos ) |
Lobo
Direito |
Lobo
Esquerdo |
Bilobar |
Total
(%) |
|
Criptogênico |
33 |
3 |
1 |
45 |
|
Hepatolitíase |
12 |
16 |
2 |
36 |
|
Colelitíase |
4 |
1 |
1 |
7 |
|
Estenose
ducto biliar comum |
0 |
0 |
2 |
2 |
|
Carcinoma
hepatocelular |
2 |
0 |
0 |
2 |
|
Colangiocarcinoma |
3 |
0 |
0 |
4 |
|
Piemia
portal |
1 |
0 |
0 |
1 |
|
Hematogênica |
1 |
0 |
1 |
2 |
|
Chu, K. et al.: Pyogenic Liver Abscess: An Audit
Experience Over Past Decade. Arch Surg. 1996; 131:148-152 |
|
Bactérias
mais comuns |
|
Aeróbicas |
Anaeróbicas |
|
Escherichia
coli |
Streptococcus
anaeróbicos |
|
Klebsiella |
Streptococcus
microaerofílicos |
|
Streptococcus
viridans |
Bacteroides |
|
Staphylococcus
aureus |
Fusobacterium |
|
Enterococcus |
Clostridium |
|
Proteus |
Actinomyces |
|
Pseudomonas |
Eubacterium |
|
Enterobacter |
Propionilbacterium |
|
Listeria |
|
|
Yersinia |
|
|
Goldman, I. S.:
Hepatology: A Textbook Of Liver Disease, 1995 |
Os abscessos piogênicos podem ser únicos ou múltiplos. A maioria dos simples
está localizada no lobo direito. A maioria dos provenientes da veia porta são
únicos, enquanto aqueles de origem biliar são múltiplos.
|
ABSCESSOS |
Simples |
Múltiplos |
|
Dor
abdominal |
Mais
freqüente |
Menos
freqüente |
|
Icterícia |
Menos
freqüente |
Mais
freqüente |
|
Alterações
laboratoriais |
Menores |
Maiores |
|
Tamanho |
>
5 cm |
<
5 cm |
|
Localização |
Lobo
direito |
Lobo
direito ou ambos |
|
Etiologia |
Criptogênica
(58,9%) |
Biliar
(45,0%) |
|
Mortalidade |
12,8% |
22,1% |
|
Chou, F.: Single and Multiple Pyogenic
Liver Abscess. World J. Surg. 21, 384-389, 1997 |
ACHADOS
CLÍNICOS
A idade média dos pacientes têm subido nas últimas décadas. Isso reflete a
mudança na etiologia dos abscessos hepáticos, que no passado provinham em grande
parte da disseminação hematogênica de um foco à distância, e agora torna-se cada
vez mais comum o abscesso secundário a colangite por obstrução biliar ou
colocação de stents em tumores hepatobiliares.
Os principais antecedentes associados à presença de abscessos hepáticos são
diabetes mellitus, hipertensão, cardiopatia isquêmica e doença pulmonar
obstrutiva crônica.
|
Sinais
e sintomas |
% |
|
Dor
abdominal |
89 |
|
Febre |
67 |
|
Calafrios |
48 |
|
Anorexia |
27 |
|
Adinamia |
17 |
|
Emagrecimento |
13 |
|
Confusão
mental |
7 |
|
Dor
em hipocôndrio direito |
70 |
|
Icterícia |
24 |
|
Hepatomegalia |
7 |
|
Ascite |
2 |
|
Chu, K. et al.: Pyogenic
Liver Abscess: An Audit Experience Over Past Decade. Arch Surg. 1996;
131:148-152 |
ACHADOS
LABORATORIAIS
|
Achados
laboratoriais |
% |
|
Hemoglobina
< 10 g/L |
13 |
|
Leucócitos
> 10.109/L |
89 |
|
Albumina
< 35 g/dL |
67 |
|
Bilirrubina
total > 40 m mol/L ( > 2,3 mg/dL ) |
22 |
|
Fosfatase
alcalina > 110 U/L |
92 |
|
Chu, K. et al.: Pyogenic Liver Abscess: An
Audit Experience Over Past Decade. Arch Surg. 1996; 131:148-152 |
IMAGEM
O RX de tórax é anormal em cerca de 50% dos pacientes. Os achados incluem a
elevação do diafragma o nível hidroaéreo dentro da massa hepática ou ambos. O
ultrassom de abdome (acurácia 83%) detecta a lesão em 80-100% dos casos. A
aparência característica é a de uma área circular ou oval dentro do parênquima
hepático, hipoecogênica. A tomografia computadorizada (acurácia 93%) revela
lesões hipodensas e hipocaptantes. A ressonância nuclear magnética também pode
ser usada, mas a CT continua o método de escolha. A colangiografia deve ser
realizada para identificar cálculos do ducto biliar comum, que podem necessitar
de extração endoscópica, ou estenoses e litíase intra-hepáticas, que podem
exigir cirurgia definitiva ou ressecção hepática.
COMPLICAÇÕES
A maioria das complicações vêm da rutura ou extensão do abscesso para estruturas
adjacentes. Em alguns estudos, o envolvimento pleuropulmonar ocorreu em 15%,
enquanto abscessos subfrênicos ocorreram em 3% dos pacientes.
TRATAMENTO
Antibioticoterapia
Se possível, a aspiração diagnóstica guiada por ultrassonografia ou tomografia
computadorizada deve ser realizada antes do início da antibioticoterapia.
Abscessos hepáticos piogênicos podem ser tratados efetivamente com antibióticos
sistêmicos, geralmente associados a outros métodos. Quando a cultura do aspirado
está disponível, o antibiótico de escolha pode ser escolhido levando-se em
consideração a sensibilidade do agente. Uma vez que o crescimento em culturas
pode levar vários dias, é aconselhável o tratamento empírico até então. Este
deve cobrir Gram negativos, estreptococos microaerofílicos e anaeróbios. A
duração do tratamento é de pelo menos 10-14 dias endovenosamente, seguida de
tratamento por via oral por 6 ou mais semanas. A duração total do tratamento
pode ser guiada por métodos de imagem.
|
Antibióticos
para terapia empírica |
|
Cefalosporina
2ª geração (cefoxitina, cefotetan), com ou sem aminoglicosídeo; |
|
Penicilina
de amplo espectro (timentin, ampicilina-sulbactam) com ou sem
aminoglicosídeo; |
|
Imipenem; |
|
Cefalosporina
3ª geração mais metronidazol ou clindamicina; |
|
Clindamicina
mais aminoglicosídeo; |
|
Goldman, I. S.:
Hepatology: A Textbook Of Liver Disease, 1995 |
Drenagem percutânea
A drenagem com sucesso é observada em 80 a 90% dos casos. A suspeita de
multiloculação ou múltiplos abscessos não contra-indica a drenagem percutânea,
que pode ser realizada efetivamente guiada por ultrassom com a colocação de mais
de um cateter (conforme demonstrado por Tazawa e colaboradores).
A combinação da drenagem percutânea e antibioticoterapia permanece o tratamento
de escolha do abscesso hepático, pela sua alta efetividade, baixa taxa de
complicações e pela possibilidade de coleta de material para culturas e
histologia, quando há dúvidas em relação à etiologia do abscesso.
Aspiração percutânea
Há muita discussão na literatura se a aspiração em conjunto com
antibioticoterapia, sem a drenagem, é apropriada. Alguns autores advogam que
essa técnica deve ser aplicada apenas em pacientes cuidadosamente selecionados
com o cuidado de realizar drenagem se os sinais de sepse persistirem. Outros
consideram o procedimento de baixo risco e satisfatoriamente efetivo, podendo
ser usado como tratamento de primeira linha ou como primeira alternativa à
drenagem percutânea.
A maior experiência é de Giorgio e colaboradores. Esse grupo realizou uma média
de 2,2 aspirações em 115 pacientes, com resolução completa em 98% deles. Yu
realizou o procedimento em 64 pacientes, com 96,8% de sucesso e 2 óbitos. Stain
usou essa técnica em 29 pacientes, com sucesso de 79% e dois óbitos. Robert
obteve 21% de sucesso e 13% de óbitos.
|
Autor |
n |
Sucesso
(%) |
Óbitos |
|
Giorgio
et al |
Itália |
115 |
98,0 |
0 |
|
Yu
et al |
Hong
Kong |
64 |
96,8 |
2 |
|
Stain
et al |
EUA |
29 |
79,0 |
2 |
|
Robert
et al |
Suíça |
16 |
21,0 |
2 |
Se, por um lado, podem ser necessárias vária sessões de aspiração, por outro nem
sempre a drenagem é efetiva. Idealmente, a drenagem mais efetiva é aquela na
qual todo o material é drenado rapidamente. Para abscessos liquefeitos, isso é
possível em ambas as técnicas. Em abscessos mais espessos, onde são necessários
cateteres e agulhas mais calibrosos, as agulhas são menos traumáticas e menos
propensas a complicações. Além disso, é mais simples, mais barato e melhor
tolerado pelo paciente.
Cirúrgico
A drenagem cirúrgica aberta foi realizada amplamente nos anos 70, sendo indicada
como tratamento de escolha até o início dos anos 80. Em geral, é reservada para
aqueles pacientes nos quais a drenagem ou aspiração percutânea não obtiveram
sucesso, pacientes sépticos ou quando é necessária cirurgia para tratamento da
doença de base. A experiência de Herman e colaboradores, do Departamento de
Gastroenterologia da FMUSP, de 1975 a 1993 (31 casos) é de bons resultados em
91,5%.
A laparotomia de emergência é indicada nos casos em que há sinais clínicos de
peritonite ou deterioração clínica do paciente apesar da aspiração ou drenagem,
ou tomografia computadorizada evidenciando abscesso persistente. A chance de que
uma laparotomia seja necessária é estatisticamente significante em pacientes com
hepatolitíase.
PROGNÓSTICO
A mortalidade associada a doença não tratada é extremamente alta. A taxa de
mortalidade foi de 40% nos anos 80. Apesar da melhora contínua nos métodos de
imagem, de antibióticos mais potentes e os avanços no conhecimento e tratamento
da doença, a mortalidade permanece de 10 a 25%.
|
Fatores
de risco para mortalidade |
|
Neoplasia; |
|
Múltiplos
abscessos; |
|
Hiperbilirrubinemia; |
|
Choque
séptico; |
|
Infecção
fúngica; |
|
Baixo
nível de hemoglobina; |
|
Leucocitose; |
|
Aumento
na uréia e creatinina séricas; |
|
Hipoalbuminemia; |
|
Alto
APACHE II |
|
Derrame
pleural |
|
Aumento
no RNI; |
O reconhecimento e o diagnóstico do abscesso hepático piogênico é freqüentemente
atrasado pelos sintomas inespecíficos. Portanto, pacientes com leucocitose e
aumento da fosfatase alcalina devem ser submetidos a tomografia computadorizada
ou ultrassonografia com urgência.

Artigo criado em: 2003
Última revisão: 2003
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