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Alcoolismo e Abuso de Álcool

Dr. Stéfano Gonçalves Jorge

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INTRODUÇÃO

    Considera-se abuso do álcool quando uma pessoa utiliza, mesmo que não constantemente, álcool em quantidade suficiente para causar problemas de saúde ou de outra espécie, como brigas e acidentes automobilístico. Mesmo sem ser dependente do álcool, uma pessoa que utiliza o álcool sem moderação pode ter complicações tão ou mais sérias que os alcoólatras.


Foto após acidente de trânsito onde um motorista bêbado atingiu um caminhão, matando a esposa e a filha (cortesia do Dr. Heitor Carvalho)

    O alcoolismo é uma doença onde há dependência do uso de álcool. O alcoólatra tem grande dificuldade de parar de beber, está sujeito aos mesmos riscos do abuso de álcool mas, como não consegue abandonar a bebida, apresenta muitas vezes uma deterioração na saúde, na família, no trabalho e no círculo de amizades.

NOSSA SOCIEDADE E O ABUSO DO ÁLCOOL

    O abuso do álcool e o alcoolismo estão entre os principais problemas da nossa sociedade. O álcool é uma droga como a heroína, a cocaína e o crack. Por que ? Porque vicia, altera o estado mental da pessoa que o utiliza, levando-a a atos insensatos, muitas vezes violentos. Pior, causa mais problemas à família e à sociedade. Infelizmente, faz parte da nossa cultura o seu uso.

Algumas estatísticas sobre o álcool

O alcoolismo acomete de 10% a 12% da população mundial e 11,2% dos brasileiros que vivem nas 107 maiores cidades do país

A incidência de alcoolismo é maior entre os homens do que entre as mulheres

A incidência do alcoolismo é maior entre os mais jovens, especialmente na faixa etária dos 18 aos 29 anos, reduzindo com a idade

A álcool é responsável por cerca de 60% dos acidentes de trânsito e aparece em 70% dos laudos cadavéricos das mortes violentas

De acordo com a última pesquisa realizada pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID) entre estudantes do 1º e 2º graus de dez capitais brasileiras, as bebidas alcoólicas são consumidas por mais de 65% dos entrevistados, estando bem à frente do tabaco. Dentre esses, 50% iniciaram o uso entre os 10 e 12 anos de idade. Então por isso proibirão venda de alcool a menores de 16 anos.

Fonte: Associação Brasileira de Psiquiatria - Abuso e Dependência do Álcool

    As outras drogas são consideradas ilegais e sua venda e uso levam a punições severas. Começamos a lutar contra o uso da nicotina, com vetos à propaganda e informações à população, mas o seu uso está crescendo, principalmente entre as mulheres. E o álcool ? Continuamos assistindo a propagandas na televisão, na rua e no rádio, mostrando que vinho e whiskey são adequados a pessoas de fino trato e, pior, que beber cerveja é pré-requisito para um bom convívio social. Algumas dizem claramente que o homem que não bebe cerveja não consegue mulheres.


Movimento Propaganda sem Bebida

    Fora os problemas com violência e direção, o álcool pode provocar diversos malefícios ao organismo. É claro que a dose necessária para isso depende enormemente da pessoa e do teor alcoólico da bebida. Em relação a cirrose, por exemplo, considera-se que um homem deve beber em média 80 gramas de álcool ( 60 g para mulheres ) por semana por 10 a 12 anos. O etanol ainda afeta diversos órgãos, causando doenças do cérebro, nervos, coração, pâncreas, etc.

Bebida

Unidade

mL

Etanol (g)

Cachaça

dose

50

17

 

garrafa

660

220

Destilados (whiskey, vodka)

dose

50

+/- 16

Aperitivos (martini, campari)

dose

50

+/- 8

Cerveja

copo

250

9

 

lata

350

13

 

garrafa

660

25

g/L = °GL x 10 x 0,7893
Fonte: Neves, MM e cols. Concentração de etanol em bebidas alcoólicas mais consumidas no Brasil. GED 8(1):17-20, 1989

DIAGNÓSTICO

    O alcoolismo é um conceito completamente diferente. É uma doença, um vício, devendo ser tratado como tal. Acredita-se que seja causado principalmente por predisposição genética, segundo achados mais recentes, e em menor parte pelo ambiente (mas as pesquisas e opiniões divergem muito sobre essa questão), não podendo ser considerado de modo algum falha de caráter. Mesmo sendo importante a quantidade do álcool ingerido, essa é uma conseqüência. Para definir uma pessoa como alcoólatra é mais significativo analisar o impacto do álcool na sua vida e se já tentou parar e não conseguiu.

    Temos dois questionários mais utilizados para identificar pessoas com abuso de álcool. O primeiro, chamado de CAGE, é mais simples e foi criado por Mayfield e colaboradores, sendo um bom método para identificar pessoas que precisam de ajuda.

Responda:

Você já sentiu necessidade de parar de beber ?

 

Você já se sentiu chateado por pessoas que criticam seu hábito de beber ?

 

Você já se sentiu culpado por beber ?

 

Você já bebeu álcool de manhã para acordar ?

Duas respostas SIM indicam abuso de álcool; apenas um SIM pode ser sinal de abuso.

    O Teste de Identificação de Distúrbio de Uso do Álcool (AUDIT), criado por Piccinelli e colaboradores, é atualmente o melhor método para a identificação e estratificação do alcoolismo.

 

Responda as questões:

1

Com qual freqüência você utiliza bebidas com álcool ?

 

(0) nunca    (1) mensalmente ou menos    (2) 2-4 vezes ao mês    (3) 2-3 vezes por semana    (4) 4 ou mais vezes por semana

2

Quantas bebidas alcoólicas você costuma tomar nesses dias ?

 

(0) 1 ou 2    (1) 3 ou 4        (2) 5 ou 6        (3) 7 a 9        (4) 10 ou mais

3

Com que freqüência toma mais que 6 drinks em uma única ocasião ?

 

(0) nunca    (1) menos que mensalmente    (2) mensalmente    (3) semanalmente    (4) quase diária

4

Com que freqüência no último ano você se sentiu incapaz de parar de beber depois que começou ?

 

(0) nunca    (1) menos que mensalmente    (2) mensalmente    (3) semanalmente    (4) quase diária

5

Com que freqüência no último ano você não conseguiu fazer algo pela bebida ?

 

(0) nunca    (1) menos que mensalmente    (2) mensalmente    (3) semanalmente    (4) quase diária

6

Com que freqüência no último ano você precisou beber de manhã para se recuperar de uma bebedeira ?

 

(0) nunca    (1) menos que mensalmente    (2) mensalmente    (3) semanalmente    (4) quase diária

7

Com que freqüência no último ano você sentiu remorso após beber ?

 

(0) nunca    (1) menos que mensalmente    (2) mensalmente    (3) semanalmente    (4) quase diária

8

Com que freqüência no último ano você não conseguiu se lembrar o que aconteceu na noite anterior pela bebida ?

 

(0) nunca    (1) menos que mensalmente    (2) mensalmente    (3) semanalmente    (4) quase diária

9

Você já se machucou ou machucou alguém como resultado do seu uso de álcool ?

 

(0) não        (2) sim, mas não no último ano        (4) sim, no último ano

10

Algum parente ou amigo ou médico ou outro profissional de saúde se preocupou com seu hábito ou sugeriu que parasse ?

 

(0) não        (2) sim, mas não no último ano        (4) sim, no último ano

 

Some os números em parênteses. Um valor maior que 8 indica problemas com bebida.

TRATAMENTO

    Há, atualmente, várias formas eficazes de se tratar o alcoolismo. O método mais simples, para casos mais leves, é a realização de consultas periódicas com uma equipe multidisciplinar  experiente (incluindo psiquiatra ou psicólogo) com o apoio da família, onde são discutidas as dificuldades de abandonar o vício e encorajados os esforços. Estudos mostram que este é um método eficaz em reduzir o uso do álcool, dependendo diretamente da freqüência das consultas.

    Outro método muito eficaz são os grupos de auto-ajuda, particularmente os alcoólicos anônimos. Esses são baseados em variações do programa de 12 passos, além de reuniões freqüentes. Os resultados dos AA são difíceis de avaliar, mas aproximadamente um terço permanece sóbrio de 1 a 5 anos, e um terço por mais que 5 anos. Outro conceito diferente de grupo de apoio é o de "Consumo Controlado", onde recomenda-se o uso em doses adequadas da bebida. A principal diferença é que no primeiro o alcoólatra tem que reconhecer que é incapaz de controlar a própria vida, no segundo afirma-se que o alcoólatra deve retomar esse controle.

    Casos mais sérios devem ser acompanhados por psiquiatra para tratamento psicoterápico e medicamentoso. Muitos alcoólatras apresentam distúrbios psiquiátricos que necessitam de tratamento, e outros sofrem de sintomas de abstinência quando param de beber, conseqüência da dependência física do álcool. Geralmente, não é necessária internação para desintoxicação, pois a eficácia não é maior. No entanto, certos casos devem obrigatoriamente ser internados.

Devem ser internados para desintoxicação:

Aqueles que sofrem sintomas de abstinência moderados a severos;

Aqueles com delirium tremens;

Aqueles que são incapazes de seguir acompanhamento diário;

Aqueles que possuem outra doença física ou psiquiátrica que necessita de internação;

Aqueles incapazes de tomar medicação por via oral;

Aqueles que já tentaram tratamento fora do hospital, sem sucesso.

     O tratamento medicamentoso também pode ser útil em associação com a psicoterapia (particularmente a comportamental combinada intensiva). Antes, poucos profissionais utilizavam drogas como o dissulfiram que, misturadas ao álcool (sem o conhecimento do doente) causavam reações severas, com sensação de morte iminente, achando que isso auxiliaria o tratamento. Os resultados são desastrosos, pois a reação pode ser realmente fatal.

     A medicação mais utilizada no momento para o tratamento do alcoolismo é a naltrexona (revia®), cujo mecanismo de ação não está bem esclarecido, mas reduz a necessidade de voltar a beber. Recentemente (2006), foi aprovada nos EUA uma apresentação injetável da naltrexona, que seria aplicada apenas mensalmente e com isso poderia aumentar a sua eficácia. O acamprosato é uma medicação mais recente, ainda não lançada no Brasil, mas aparentemente não tem melhor eficácia nem segurança que a naltrexona.

CONCLUSÕES

    Concluindo, o álcool é responsável, além de diversas doenças, por grande parte dos atos de violência e dos acidentes dos mais variados, desde trânsito até de trabalho.  Apesar das suas conseqüências desastrosas, o ato de beber é considerado parte fundamental do convívio social, dificultando as campanhas (muito aquém do necessário) de conscientização. No extremo do ato de beber, encontramos os alcoólatras, dependentes do álcool que devem contar com o apoio e compreensão da sociedade para sua recuperação, que deve abandonar o preconceito e tratá-los com respeito.

Artigo criado em: 2001
Última revisão: 18/01/07

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