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Dr. Stéfano Gonçalves Jorge
Introdução
A Síndrome de Budd-Chiari é a hipertensão
portal com hepatomegalia causada pela obstrução venosa do sistema de
drenagem do fígado. O quadro clínico foi descrito inicialmente por Budd em
1845 e as alterações histológicas por Chiari em 1899.
Todo o sangue que entra no fígado o faz pelo sistema porta (figura 1) ou pela
artéria hepática. Após passar pelos espaço-porta (figura 2), o sangue vai sendo
coletado pelas vênulas hepáticas até as veias hepáticas e, dessas, até a veia
cava inferior, que se une à veia cava superior e entra no lado direito do
coração. Se ocorre alguma obstrução entre as vênulas hepáticas e a veia cava
inferior, o sangue fica "represado" no fígado, que aumenta da tamanho, causando
dor, além de aumentar a pressão em todo o sistema porta (hipertensão
portal). Além das complicações causadas pelo aumento da pressão no sistema
porta, o fluxo de sangue no fígado diminui, levando a morte de hepatócitos na
porção mais "hipóxica" do fígado, a centrolobular (próximo da veia central),
apesar do aumento da pressão na artéria hepática. O fluxo reduzido no sistema
porta pode ainda facilitar o surgimento de uma trombose da veia porta em 10 a
20% dos casos.
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| Figura 1 |
Figura 2 |
| Cerca de 70-80% do sangue
que chega ao fígado vem pelo sistema porta, um conjunto de veias que
colhe o sangue de todos os órgãos do sistema digestivo e se unem na veia
porta, que entra no fígado e traz, além de pouco oxigênio, todos os
nutrientes e substâncias tóxicas da nossa alimentação, que serão
processados no fígado |
A veia porta se ramifica
até se distribuir por todo o fígado em vasos bem finos, que levam o
sangue até os sinusóides, veias especiais com grandes poros, que
permitem grande contato do sangue com as células principais do fígado,
os hepatócitos, que absorvem e eliminam substâncias tóxicas, além de
dezenas de outras funções. O sangue, já "processado", é coletado pelas
veia centrais, que se unem até formar as veias hepáticas |
Etiologia
As obstruções das vênulas hepáticas, ou doença veno-oclusiva do fígado, são
incomuns, podendo resultar da ingestão de toxinas, quimioterapia e
radioterapia. Em geral, são distintas das outras obstruções abaixo e não são
consideradas como parte da Síndrome de Budd-Chiari.

Relações anatômicas entre a veia porta, as veias hepáticas e a veia cava
inferior (fonte)
As obstruções das veias hepáticas são geralmente causadas por doenças que
facilitem a coagulação dentro dos vasos (estado de hipercoagulabilidade):
síndromes mieloproliferativas (a principal causa), anticoagulante lúpico,
policitemia vera, hemoglobinúria paroxística noturna, doença de Behçet,
mutações do fator V, deficiências de antitrombina III e proteínas C e S e
uso de contraceptivos ( associado a algum dos fatores anteriores). Outras
causas incluem o carcinoma hepatocelular,
cistos e
abscessos intra-hepáticos e tumores
extra-hepáticos (como rabdomiossarcoma, leiomiossarcoma, leiomioma e
hipernefroma) que podem obstruir as veias hepáticas.
As
obstruções da veia cava inferior podem ser causadas por membrana no vaso,
trombose ou compressão extrínseca (de fora). A primeira descrição de membrana é
atribuída a Osler, em 1879, sendo uma causa rara no Ocidente, mas uma das
principais causas no Oriente e sul da África. Provavelmente, esta membrana é
secundária a trombose.
Histopatologia
Na lesão aguda, o fígado pode estar muito aumentado, macroscopicamente
congesto, descolorido e com bordas rombas. O exame histológico mostra áreas
periportais normais nos estágios iniciais, mas o tecido perivenular é
escurecido pela congestão sangüínea causada pela trombose venosa. A redução
do fluxo sangüíneo, não compensada pelo aumento reflexo da pressão na
artéria hepática, leva a atrofia e necrose dos hepatócitos centrolobulares.
Seguindo o colapso do estroma, as veias centrais obliteram. Os sinusóides se
tornam carentes de eritrócitos, que estão tipicamente concentrados no espaço
de Disse.
  
Biópsia colhida por via transjugular, mostrando aglomerado de hemácias e
dilatação dos sinusóides próximos à veia centrolobular em paciente com
Budd-Chiari, antes (esquerda) e após tratamento com TIPS (fonte)
Raramente a doença hepática resultante é fulminante. Na lesão crônica os
trombos de fibrina se organizam com núcleos fibrosos. Fibras colágenas finas
substituem os cordões hepáticos e o estroma colapsado, e a regeneração
ocorre como um primeiro sinal de fibrose e cirrose. Cerca de 40% dos
pacientes evoluem com cirrose. Como o lobo caudado
drena diretamente para a veia cava inferior por veias pequenas e
freqüentemente sãs, tende a compensar a perda de tecido hepático, algumas
vezes com aumento expressivo, podendo causar até mesmo trombose da veia cava
inferior por compressão.
Manifestações Clínicas
O aparecimento dos sintomas é freqüentemente insidioso com desconforto em
hipocôndrio direito e ascite progressiva causada
pela hipertensão portal. No início, pode haver icterícia leve com disfunção
hepática mínima. Nesse estágio precoce, a Síndrome de Budd-Chiari pode
mimetizar a pericardite constritiva.
Achados clínicos que sugerem obstrução da veia cava incluem edema de membros
inferiores, episódios de embolia pulmonar e, algumas vezes, dilatação venosa
superficial de membros inferiores, abdome e região lombar.

Alguns pacientes, no entanto, são assintomáticos. Com diuréticos, o quadro
clínico pode apresentar melhora, mas esse tratamento é apenas sintomático e o
aumento da pressão portal pode levar a hemorragia de
varizes esofágicas e falência hepática progressiva.
Em
uma pequena porção dos casos, a Síndrome de Budd-Chiari apresenta-se como
falência hepática fulminante, evoluindo em oito semanas com
encefalopatia, coagulopatia e necrose
hepática maciça.
Investigação
A ultrassonografia apresenta sensibilidade superior a 85% e, com o dupplex
scanning, é a ferramenta mais importante no diagnóstico da Síndrome de
Budd-Chiari. A ressonância nuclear magnética (RNM) ainda está em avaliação.
A tomografia computadorizada permite melhor avaliação do parênquima
hepático. Massas necróticas ou hiperplasia regenerativa nodular podem
lembrar metástases, que devem ser excluidas por citologia. A cintilografia,
hoje em dia, tem apenas interesse histórico.

Cavograma mostrando estreitamento da veia cava inferior (*); a dilatação de
ramos venosos colaterais (setas) mostra que o estreitamento é hemodinamicamente
significativo (fonte).
A cateterização angiográfica da VCI e veias hepáticas pode mostrar oclusão
ou estreitamento da VCI por compressão pelo lobo caudado. Se as veias
hepáticas forem visualizadas, podem mostrar lesão típica em "teia de
aranha". A medida da pressão intraluminal de VCI e, se possível, da pressão
encunhada das veias hepáticas, é mandatória para o planejamento cirúrgico.
É
de vital importância, na investigação, uma biópsia hepática para definir o grau
de dano hepatocítico e a extensão da fibrose e cirrose.
Tratamento
A Síndrome de Budd-Chiari, se não tratada, evolui para óbito em meses ou
anos e a resolução espontânea é rara, portanto deve ser instituido
tratamento assim que possível.
O
tratamento clínico, com anticoagulantes, deve ser oferecido para todo paciente
se não houver contra-indicação. O objetivo do tratamento é evitar a progressão
da trombose, mas é insuficiente para melhorar o prognóstico. Casos raros
descritos mostraram trombólise bem sucedida, se realizada em até 72 horas
(preferencialmente 24 horas) do início dos sintomas na apresentação aguda. Além
disso, na apresentação crônica, deve-se avaliar a presença de varizes esofágicas
e outras complicações da cirrose, como a encefalopatia hepática e a ascite, que
devem ser tratadas adequadamente.
No
caso de teias, membranas ou obstruções curtas na VCI ou em uma veia hepática, a
angioplastia percutânea (dilatação da veia com balão) seguida de anticoagulação
apresenta bons resultados. A colocação de prótese (stent) ou laser em estenose
ostial das veias hepáticas também foram descritos. Em obstruções mais extensas
envolvendo estenose da VCI, pode ser realizada cavoplastia com pericárdio.
Também pode ser realizada, no caso de obstrução da VCI e das veias hepáticas,
uma ressecção da parte do fígado contendo as porções terminais das veias
hepáticas principais, seguida de anastomose direta no ventrículo direito.
Outra opção de tratamento são os shunts ("curto-circuitos"). Trata-se de desviar
o fluxo sanguíneo de uma das maiores veias esplâncnicas para reduzir a
hipertensão portal, melhorando a função hepática e prevenindo complicações.
Diferentes formas de shunt foram descritas no tratamento, a escolha dependendo
da VCI pérvia e do gradiente de pressão entre a veia porta e a veia cava, pois
um gradiente mínimo de 10 mmHg é necessário para manter o shunt pérvio a longo
prazo.
No
shunt portocava, a construção portocava látero-lateral é o procedimento de
escolha apenas se a pressão na VCI é substancialmente menor que a portal. Tem a
mais alta taxa de manutenção do shunt. No shunt mesocava, o shunt em "H" é
simples e evita ressecção hilar; como a veia porta e a VCI supra-renal
infra-hepática não são manipuladas, permitem transplante hepático no futuro. No
entanto, tem alta taxa de trombose (24-53%). No shunt mesoatrial, o bypass do
fígado e da VCI é indicada em pacientes nos quais a VCI está total ou
parcialmente ocluída, especialmente se houver oclusão concomitante de veias
hepáticas.
O TIPS (derivação intra-hepática
portossistêmica transjugular) é um procedimento radiológico no qual é
realizado um "desvio" entre a veia porta e a veia cava inferior, através da
colocação de uma prótese (stent) que é instalado no local por um cateter que
foi introduzido pela veia jugular, no pescoço, até a veia cava. Com essa
derivação, há redução na hipertensão portal, levando a redução na ascite,
diminuição do risco de hemorragia por varizes esôfago-gástricas e melhora
nas síndromes hepatorrenal e
hepatopulmonar. Há o risco de desencadeamento de encefalopatia hepática
ou piora da mesma se o paciente já a apresentava, mas que geralmente pode
ser controlada se for leve. O papel do TIPS na Síndrome de Budd-Chiari é o
de servir como "ponte" até a realização de transplante hepático nos casos
graves (cirrose avançada, insuficiência hepática fulminante), uma vez que há
o risco de obstrução da prótese com o passar do tempo (até 67% em 1 ano) e o
procedimento não prejudicará a realização de um transplante (ao contrário
dos shunts cirúrgicos). O TIPS também é eficaz no controle da hemorragia por
varizes de esôfago de difícil controle com medicamentos e/ou tratamento
endoscópico.
O
transplante hepático é indicado no lugar do shunt se há sinais de insuficiência
hepática, especialmente em casos de insuficiência hepática fulminante,
hepatopatia crônica terminal e aqueles que pioraram rapidamente após realização
de shunt. Na maioria das coagulopatias hereditárias, o transplante também cura a
coagulopatia, mas mesmo assim é recomendado o uso de anticoagulantes com
monitorização cuidadosa.
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Artigo criado em: 23/12/04
Última revisão: 17/01/07
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