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Cannabis (maconha) e o Fígado

Dr. Stéfano Gonçalves Jorge

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   Chamou a minha atenção o fato de que o uso da cannabis (maconha) estaria sendo defendido como benéfico na hepatite C, especialmente por diminuir os efeitos colaterais do tratamento com interferon, que podem ser debilitantes e levar a redução na dose ou na suspensão da medicação, reduzindo portanto a probabilidade do paciente alcançar a resposta virológica sustentada.

   Não faz parte do perfil deste site defender ou condenar a legalização da maconha, discutir se essa droga é realmente uma porta de entrada para outras "mais pesadas" ou sobre os seus riscos neuropsiquiátricos. Esse breve artigo se refere exclusivamente ao seu uso medicinal em doenças do fígado e suas conseqüências no órgão.


O cannabis medicinal, tanto em sua forma natural quanto sintética (dronabinol), possui efeitos benéficos no glaucoma, no emagrecimento pela AIDS, na náusea causada pela quimioterapia do câncer, na dor neuropática e na espasticidade da esclerose múltipla. Como todo medicamento, no entanto, é necessário estabelecer as suas indicações e contra-indicações.

   Há pelo menos um estudo mostrando benefício do cannabis na maior tolerância aos efeitos colaterais do interferon, o que levaria a maior aderência e, portanto, aderência e eficácia ao mesmo. Mas esse estudo (1) foi realizado em portadores de hepatite C que já eram usuários do cannabis antes de iniciar o tratamento. Isso não significa que os mesmos efeitos serão observados em portadores que não utilizavam a droga anteriormente.

  Além disso, o cannabis e canabinóides podem levar a lesão hepática. Isso pode ocorrer por estímulo dos receptores de canabinóides hepáticos, que são praticamente ausentes no fígado normal, mas que são progressivamente mais presentes ao longo de doenças hepáticas crônicas. A ativação desses receptores tem ação profibrogênica por estímulo das células esteladas, altera o metabolismo energético induzindo ao acúmulo de triglicérides no fígado (fazendo parte da fisiopatogenia da esteatose hepática e esteato-hepatite) e pode causar vasodilatação hepática (2-5).


Não se engane ao pensar que, por algo ser "natural", esteja isento de efeitos colaterais. A natureza está repleta de toxinas (combatê-las é uma das principais funções do fígado), se uma planta tem a propriedade de trazer algum efeito benéfico ao organismo, necessariamente será tóxica acima da dose adequada, além de poder possuir outras substâncias maléficas que causem problemas mesmo quando a dose recomendada. Alguns dos mais potentes venenos conhecidos pelo Homem são "naturais".

   Na cirrose hepática, o sistema endocanabinóide (estimulado pelo cannabis) pode contribuir para a encefalopatia hepática e alterações vasculares, incluindo vasodilatação do sistema esplâncnico e hipertensão portal (responsáveis pelas varizes esofágicas e parte da fisiopatogenia da ascite e da síndrome hepatorrenal) e possivelmente contribuindo para a cardiomiopatia cirrótica (5).

   O cannabis, portanto, não está recomendado durante o tratamento da hepatite C, pois consiste em fator de risco adicional para a gravidade da doença (6,7). Além disso, o seu uso estaria contra-indicado em portadores de doenças hepáticas e, nas situações onde o seu uso medicinal está indicado (em casos selecionados de glaucoma, por exemplo), deveria haver monitoramento periódico de marcadores de lesão hepática durante o seu uso.

BIBLIOGRAFIA

1. Sylvestre DL, Clements BJ, Malibu Y. Cannabis use improves retention and virological outcomes in patients treated for hepatitis C. Eur J Gastroenterol Hepatol. 2006 Oct;18(10):1057-63
2. Tam J, Liu J, Mukhopadhyay B, Cinar R, Godlewski G, Kunos G. Endocannabinoids in liver disease. Hepatology. 2011 Jan;53(1):346-55
3. Mallat A, Lotersztajn S. Endocannabinoids and their role in fatty liver disease. Dig Dis. 2010;28(1):261-6. Epub 2010 May 7
4. Domínguez M, Colmenero J, Bataller R. Treatment of liver fibrosis. Gastroenterol Hepatol. 2009 Nov;32(9):627-32
5. Parfieniuk A, Flisiak R. Role of cannabinoids in chronic liver diseases. World J Gastroenterol. 2008 Oct 28;14(40):6109-14.
6. Hézode C, Zafrani ES, Roudot-Thoraval F, Costentin C, Hessami A, Bouvier-Alias M, Medkour F, Pawlostky JM, Lotersztajn S, Mallat A. Daily cannabis use: a novel risk factor of steatosis severity in patients with chronic hepatitis C. Gastroenterology. 2008 Feb;134(2):432-9
7. Ishida JH, Peters MG, Jin C, Louie K, Tan V, Bacchetti P, Terrault NA. Influence of cannabis use on severity of hepatitis C disease. Clin Gastroenterol Hepatol. 2008 Jan;6(1):69-75.

Artigo criado em: 20/04/11
Última revisão: 20/04/11

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