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Hepatite por citomegalovírus

Dr. Stéfano Gonçalves Jorge

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EPIDEMIOLOGIA

   O citomegalovírus (CMV) e o vírus Epstein-Barr (EBV) pertencem às sub-famílias beta e gama dos vírus da herpes. Eles apresentam pouco tropismo, ou seja, não afetam um órgão específico, mas espalham-se pelo corpo através dos leucócitos periféricos após a infecção. Podem causar hepatite como principal manifestação clínica, mas geralmente esta hepatite é assintomática.

   Estima-se que 50% da população mundial tenha evidência de infecção recente ou antiga por CMV ou EBV, mais ainda nos pacientes com hepatite. Na grande maioria das hepatites com estes achados, nenhum dos dois vírus é responsável pela hepatite.

   O CMV pode ser adquirido em qualquer idade. Entre 0,3 e 2,0% dos bebês apresentam infecção congênita. Pela transmissão por secreções, incluindo leite materno, secreções genitais, saliva e urina, cerca de 40% dos adultos jovens (em países industrializados) já foram infectados, com esta taxa crescendo ao ritmo de 1% ao ano até a 6a. década de vida. Virtualmente todas estas infecções primárias são assintomáticas, com ocasional quadro gripal.

   Mesmo desenvolvendo anticorpos, o indivíduo não se torna imune a reativação da doença (nos episódios de redução da imunidade, como na quimioterapia, na AIDS e no transplante hepático) ou a novas infecções. As principais fontes de reinfecção são derivados de sangue e órgãos transplantados. Mesmo em transplantados com sinais de infecção por CMV, a principal fonte é a reativação da doença pelos imunossupressores.

DIAGNÓSTICO

   Os sintomas são pouco característicos, geralmente cursando com febre e dores articulares. A presença de trombocitopenia (diminuição de plaquetas) sugere doença mais grave. A utilização da sorologia pode levar a muitos erros diagnósticos. A presença de anticorpos da classe IgM, normalmente positivos em infecções agudas, não podem ser utilizados em pacientes com infecção congênita ou imunossupressão, onde a infecção por CMV é mais crítica. O diagnóstico por detecção do vírus é mais confiável, com diversas técnicas disponíveis. Recomenda-se a utilização de amostras de urina, saliva e sangue (cultura de leucócitos).

Exames

Interpretação

Anticorpo IgM

Anticorpo produzido nas infecções agudas

Anticorpo IgG

Anticorpo produzido após a fase aguda e não significa doença nem imunidade contra ela, apenas que a pessoa já teve contato com o vírus ( que pode continuar no organismo )

Detecção do vírus

Diversos métodos são capazes de detectar a presença de vírus, mas só são necessários em imunossuprimidos, aonde é necessário diferenciar uma reativação da infecção de outras doenças

   Na biópsia hepática, a infecção congênita aparece como "hepatite neonatal de células gigantes", sendo que essas células gigantes multinucleadas são uma resposta inespecífica do fígado. O achado característico da hepatite pelo CMV são inclusões grandes e únicas no núcleo das células, chamadas de "olhos de coruja" (Cowdrey tipo A). Elas podem ser encontradas  nos hepatócitos e nas células de Kupffer, mas são mais comuns nas células do epitélio biliar. Em pacientes com sistema imunológico comprometido, no entanto, as inclusões são mais comuns nos hepatócitos e a doença é mais agressiva. Foram descritos em diversos estudos fibrose hepática provavelmente secundária à infecção por CMV, que pode portanto ser uma causa de fibrose portal não-cirrótica.


Inclusão típica do CMV em "olho de coruja" ( www.medlib.ed.utah.edu )

COMPLICAÇÕES

   Apesar dos relatos de fibrose hepática na CMV congênita, geralmente os pesquisadores concordam que a hepatite por CMV não se cronifica. Assim, embora possa estar associado a fibrose hepática, não evolui até cirrose.

TRATAMENTO

   Os medicamentos mais utilizados na hepatite pelo CMV são o ganciclovir e o valganciclovir. No entanto, o desenvolvimento de resistência pelo vírus e a supressão da medula óssea são fatores limitantes comuns no tratamento. Se ocorre resistência, o foscarnet torna-se a opção de tratamento nas hepatites severas, mas também seu uso é limitado, pois é tóxico ao rim. Por esses motivos, só indica-se o tratamento em pessoas com deficiência imunológica, pois nas demais a infecção é auto-limitada. Não se recomenda rotineiramente o tratamento de recém-nascidos com infecção congênita.

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Artigo criado em: 29/08/05
Última revisão: 22/03/11

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