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Dr. Stéfano Gonçalves Jorge
Introdução
A
hepatite autoimune (HAI) é uma doença causada por um distúrbio do sistema
imunológico, que passa a reconhecer as células do fígado (principalmente
hepatócitos) como estranhas. A partir daí o sistema imune desencadeia uma inflamação crônica, com
destruição progressiva do fígado e a formação de cicatrizes (fibrose). Sem o tratamento adequado em tempo,
isso pode
levar a progressão para cirrose com suas complicações,
como varizes de esôfago, ascite
e encefalopatia hepática. Cirrose biliar
primária, colangite esclerosante
primária, colangite autoimune e outras hepatopatias crônicas que têm bases
imunológicas, mas que afetam primariamente as células dos canais biliares e têm resposta
insatisfatória à corticoterapia são consideradas à parte. Mesmo a HAI
é um conjunto com características comuns de doenças diferentes, como pode-se observar pelas
manifestações, achados laboratoriais, evolução e resposta ao tratamento tão
distintos em grupos populacionais diferentes que o diagnóstico muitas vezes é feito por meio de um sistema de escore (pontuação) e há descrições de subtipos diferentes de hepatites autoimunes,
descritos abaixo.
É uma doença relativamente rara, acometendo cerca de entre 11 e 17 pessoas a
cada 100.000. É mais comum em mulheres (3,6 para cada homem) e pode se
manifestar em qualquer grupo étnico e faixa etária. A apresentação (surgimento
dos sintomas) é geralmente inespecífica, com fadiga, icterícia, náusea, dor
abdominal e dores articulares, mas os quadro clínico inicial pode variar desde o
paciente completamente assintomático (35-45% dos pacientes) até a falência
hepática com encefalopatia. A presença ou ausência dos sintomas, no entanto, não
significa necessariamente diferença no estágio da doença - o grau de inflamação
do fígado e a presença ou não de cirrose independe da existência de sintomas,
que surgirão eventualmente em 70% dos inicialmente assintomáticos.
Antes do surgimento da corticoterapia (supressão do sistema imunológico com
hormônio), estimava-se que 40% dos pacientes com doença severa faleciam em 6
meses, e os que sobreviviam além disso desenvolviam cirrose e suas complicações.
Estudos posteriores demonstraram grande eficácia do tratamento com prednisona
(corticosteróide) sozinha ou associada a azatioprina (outro imunossupressor),
que se tornou o tratamento padrão para a doença. Novas drogas vêm surgindo como
opções em pacientes que apresentam efeitos colaterais ou que não responderam ao
tratamento anterior, permitindo o controle ainda melhor de casos anteriormente
difíceis. Infelizmente, como a doença evolui silenciosamente na maioria dos
casos, o diagnóstico com cirrose avançada ainda ocorre, mas o transplante
hepático para esses casos e para aqueles nos quais a doença progrediu apesar do
tratamento tem ótimos resultados, com sobrevida em 10 anos de cerca de 75%.
FISIOPATOGENIA
Aceita-se que a HAI
ocorra pela seguinte seqüência (simplificada):
-
anticorpos são substâncias produzidas pelo sistema imunológico para destruir
vírus, bactérias e outros agentes nocivos;
-
para produzir anticorpos, o
sistema imune precisa reconhecer esse agente nocivo como estranho ao
organismo;
-
praticamente todas as
substâncias têm moléculas em sua superfície que podem ser analisadas
pelas nossas células do nosso sistema imune - essas moléculas são chamadas
antígenos;
-
ao encontrar um
antígeno,
nosso sistema têm a capacidade de diferenciar o que é nosso e normal do
que é estranho e deve ser eliminado;
-
algumas pessoas são portadoras de mutações* que tornam o sistema imunológico
menos preciso para diferenciar o que é ou não parte do organismo e/ou menos
capaz de controlar o processo de ativação imunológica errônea;
-
nas doenças autoimunes, nosso
sistema imunológico reconhece como antígenos (auto-antígenos)
componentes de alguma de nossas células normais (no caso da HAI,
componentes dos hepatócitos);

Anticorpos anti músculo liso observados por imunofluorescência
indireta, envolvendo fibras de músculo liso de vasos sanguíneos (aumento 40).
Zachou et al. Journal of Autoimmune Diseases 2004 1:2 doi:10.1186/1740-2557-1-2
-
esse erro pode ser desencadeado por uma bactéria, substância tóxica ou vírus
que têm, em sua superfície, um antígeno muito semelhante a algum componente
de nossas células (o que acaba "confundindo" o sistema imunológico) -
chamamos esses agentes de gatilhos;
-
após esse erro, o organismo
desencadeia uma resposta inflamatória com envolvimento predominante das
células chamadas linfócitos T, que passam a produzir anticorpos (auto-anticorpos) contra células
específicas, levando a uma doença auto-imune;
-
por
isso, geralmente o tratamento é baseado em suprimir o sistema imunológico,
não tratando a causa da doença, uma vez que não temos ainda como alterar
esse erro.
* A
herança genética relacionada à HAI é, no entanto, complexa e envolve múltiplos
genes. Como o risco de transmissão para a geração seguinte é muito pequeno, não
se recomenda o rastreamento de marcadores genéticos em pacientes e familiares.
Uma exceção é a doença genética chamada síndrome APECED (poliendocrinopatia
autoimune - candidíase - distrofia ectodérmica), causada por uma mutação do gene
AIRE (regulador autoimune).
DIAGNÓSTICO
O diagnóstico da hepatite autoimune é feito com base nos seguintes critérios do
Grupo Internacional de Hepatite Autoimune:
| |
Definitivo |
Provável |
| Histologia
hepática |
Hepatite de interface de atividade
moderada ou severa com ou sem hepatite lobular ou necrose centro
portal em ponte, mas sem lesões biliares ou granulomas bem
definidos ou outras alterações importantes sugestivas de outra
etiologia. |
Mesmo que para "definitivo". |
| Exames bioquímicos |
Qualquer anormalidade nas
transaminases séricas,
especialmente se a
fosfatase alcalina não estiver muito elevada. Concentrações
séricas normais de alfa-1-antitripsina,
cobre e ceruloplasmina. |
Mesmo que para "definitivo", mas
pacientes com concentrações anormais de cobre ou ceruloplasmina
podem ser incluídos, desde que a doença de
Wilson tenha sido excluída após investigação adequada. |
| Imunoglobulinas |
Concentrações de imunoglobulinas
totais, gamaglobulina ou IgG no soro acima de 1,5 vezes o limite
superior da normalidade. |
Qualquer elevação de imunoglobulinas
totais, gamaglobulina ou IgG no soro acima do limite superior da
normalidade. |
| Anticorpos |
Soropositividade para os anticorpos
ANA, AML ou anti LKM1 em títulos acima de 1:80. Títulos menores
(especialmente para o LKM1) podem ser significativos em crianças.
Sorologia para antimitocôndria negativa. |
Mesmo que para "definitivo", mas com
títulos de 1:40 ou maiores. Pacientes soronegativos para esses
anticorpos mas soropositivos para outros (relacionados à HAI) podem
ser incluídos. |
| Marcadores virais |
Soronegatividade para marcadores de
infecção ativa para os vírus das hepatites
A, B e C. |
Mesmo que para "definitivo". |
| Outros fatores etiológicos |
Consumo médio de álcool inferior a
25 g/dia. Ausência de uso recente de drogas sabidamente
hepatotóxicas. |
Consumo de álcool inferior a 50
g/dia e ausência de história de uso de drogas hepatotóxicas.
Pacientes que consumiram quantidades maiores de álcool e drogas
sabidamente hepatotóxicas podem ser incluídos, se houver evidências
claras de manutenção do dano ao fígado mesmo após abstinência
alcoólica e suspensão da medicação. |
O diagnóstico, portanto, baseia-se em confirmar a presença de inflamação no
fígado (pela histologia e marcadores de destruição de hepatócitos no sangue), a
presença de anticorpos contra hepatócitos e a falta de sinais sugestivos de
lesão em canais biliares ou de outras doenças que levam a hepatite crônica e
cirrose. A maioria dos casos é diagnosticada com base nesses critérios, mas
alguns não se encaixam tão bem.

Hepatite de interface, o achado histológico mais típico na
HAI. A placa limitante do trato portal é invadida por um infiltrado de células linfoplasmocitárias. Hematoxilina e eosina; aumento, 200.
Como não há um exame específico para a HAI, o diagnóstico de casos difíceis é
baseado em um escore
(sistema de pontos), onde características da HAI "ganham" pontos e
características que sugiram outras causas "perdem" pontos. Antes
do tratamento, pontuação maior de 15 significa diagnóstico de certeza e
de 10 a 15 seria uma "provável" HAI. Como uma das características da
HAI é a melhora com a corticoterapia, há pontuação após o tratamento:
acima de 17, certeza e entre 12 e 17 provável. Essa diferenciação existe
porque precisamos de um diagnóstico provável ou de certeza para começar um
tratamento. Se esse tratamento não surtir nenhum efeito benéfico, é pouco
provável que o diagnóstico de HAI esteja correto.
|
Escore Diagnóstico para HAI |
|
Gênero |
|
Marcadores virais |
|
Fenótipos HLA |
|
feminino |
+2 |
positivos |
-3 |
DR3 ou DR4 |
+1 |
|
Fosfatase alcalina / AST
(ou ALT) |
negativos |
+3 |
|
|
|
> 3 vezes |
-2 |
Outros marcadores |
|
|
|
< 1,5 vezes |
+2 |
anti SLA, anti actina, anti LC1, pANCA |
+2 |
|
- |
|
Gamaglobulina ou IgG |
Hemotransfusão |
Resposta ao tratamento |
|
> 2,0 vezes o normal |
+3 |
sim |
-2 |
completa |
+2 |
|
1,5 - 2,0 vezes o normal |
+2 |
não |
+1 |
recaídas |
+3 |
|
1,0 - 1,5 vezes o normal |
+1 |
Álcool |
|
|
|
< 1,0 vezes o normal |
0 |
< 25 g/d |
+2 |
|
|
|
ANA, AML ou anti-LKM1 |
> 60 g/d |
-2 |
|
|
|
> 1:80 |
+3 |
Outra doença autoimune |
|
|
|
1:80 |
+2 |
tireoidite, colite ou outra |
+2 |
Score
Diagnóstico |
|
1:40 |
+1 |
Achados histopatológicos |
|
< 1:20 |
0 |
hepatite de interface |
+3 |
Pré-tratamento |
|
Anticorpo anti-mitocôndria |
plasmacitico |
+1 |
definitivo |
> 15 |
|
positivo |
-4 |
rosetas |
+1 |
provável |
10-15 |
|
Drogas |
nenhum dos acima |
-5 |
Pós-tratamento |
|
sim |
-4 |
alterações biliares |
-3 |
definitivo |
> 17 |
|
não |
+1 |
alt. sugest. de outra patologia |
-3 |
provável |
12-17 |
Um cuidado especial na avaliação do
paciente com hepatite autoimune é avaliar a possibilidade de lesão de vias
biliares durante a evolução. Cerca de 44% dos adultos com diagnósticos de HAI e
doença inflamatória intestinal (retocolite ulcerativa e doença de Crohn)
apresentam sinais compatíveis com colangite
esclerosante primária na
colangiografia
com contraste (contra apenas 8% em pacientes sem DII). Essas alterações também
devem ser investigadas se não há resposta aos tratamento com corticosteróide em
3 meses.
Classificação
São descritos
2 subtipos
de HAI, com características laboratoriais e clínicas diferentes, mas o
tratamento é idêntico. Um terceiro tipo foi proposto, mas atualmente esse
diagnóstico foi abandonado. No futuro, é possível que cada um deles tenha um
tratamento específico para a sua causa, com melhores resultados.
|
Subtipos da HAI |
|
|
Tipo 1 (80%) |
Tipo 2 (4%) |
Tipo 3 (3%)
(abandonado) |
|
Auto-anticorpos característicos
|
ANA, AML
|
Anti-LKM1 |
Anti-SLA/LP |
|
Auto-anticorpos associados
|
Anti-actina, pANCA, anti SLA |
Anti-LC1, anti LKM3, anti
SLA
|
ANA, AML
|
|
Autoantígenos |
desconhecido |
P450 IID6 (CYP2D6) |
tRNP |
|
Idade |
Pico entre 16-30 anos
50% acima de 30
23% acima de 60 |
2-14 anos |
20-40 anos |
|
Gênero |
Feminino (70%) |
Feminino |
Feminino (91%) |
|
Doenças imunológicas comuns
|
Em 15-34%
Tireoidite autoimune
Doença celíaca
Sinovite
Colite ulcerativa
|
Diabetes
Vitiligo
Tireoidite autoimune
|
Tireoidite autoimune
Sinovite
Colite ulcerativa
Doença de Graves |
|
Aparecimento agudo |
40% |
Comum |
Comum |
|
HLAs associados |
DR3, DR4 |
B14, DR3 |
DR3 |
|
Alelos susceptíveis |
DRB1*0301, DBR1*0401 |
C4A-QO, DRB1*07 |
desconhecido |
|
Hepatite fulminante |
Sim |
Sim |
- |
|
Cirrose aos primeiros
sintomas |
Sim (25%) |
Rápida |
Sim |
|
Tratamento |
Prednisona com ou sem
azatioprina |
ANA ( anticorpo antinúcleo );
AML ( anti músculo liso );
Anti-LKM1 ( microssomo fígado/rim 1 ); anti-SLA/LP ( anti
antígeno solúvel hepático/fígado pâncreas ); anti-LC1 ( anti citosol hepático
tipo 1 );
pANCA ( anticorpos citoplasmáticos anti-neutrofílicos perinucleares ).
Essa divisão em dois subtipos procura apenas agrupar características
semelhantes laboratoriais e clínicas, mas não é definitiva. Os
auto-anticorpos descritos em cada um deles pode existir nos demais. Se
dividirmos a HAI pelo auto-anticorpo encontrado, teremos outras
classificações.
|
Auto-anticorpos
associados à HAI |
|
Auto-anticorpos |
Auto-antígenos |
Implicações
Clínicas |
|
ANA |
Histonas, centrômeros,
ribonucleoproteínas |
HAI tipo 1 |
|
AML |
Componentes actínicos e
não actínicos |
HAI tipo 1 |
|
Anti-LKM1 |
P450 IID6 (CYP2D6) |
HAI tipo 2 e Síndrome
autoimune poliglandular tipo 1 |
|
Anti-SLA/LP* |
tRNP(ser)sec |
HAI tipos 1, 2 e 3 e
hepatite crônica criptogênica |
|
pANCA |
Desconhecido |
HAI tipo 1 e hepatite
crônica criptogênica |
|
Receptor
asialoglicoproteína* |
Glicoproteína
hepatocítica transmembrana |
Todas as HAI, reflete
atividade da doença e tendência a recidiva |
|
Actina* |
Actina polimerizada F |
HAI tipo 1, doença em
mais jovens e baixa freqüência de remissão |
|
Anti-LC1* |
Formiminotranferase,
ciclodeaminase, argininosuccinatoliase |
HAI tipo 2, doença em
mais jovens e mais agressiva |
*
em estudo ou de uso limitado
Portanto, essas subdivisões têm função didática (para ensino) e
científica (para comparar tratamentos e investigar as causas da
doença). Sua utilidade prática é limitada.
TRATAMENTO
Considerações gerais
A prednisona,
sozinha ou em associação com a azatioprina,
produz remissão (normalização) clínica, bioquímica e histológica em
65% dos portadores de hepatite autoimune severa dentro de 2 anos. A
expectativa de vida após tratamento em 10 e 20 anos são acima de 80%
e é igual à da população da mesma região, idade e sexo. Portadores
de doença com o mesmo grau de agressividade, se não tratados, têm
uma mortalidade de 50% em 3 anos e 90% em 10 anos.
O risco-benefício da corticoterapia (uso de corticosteróides, como a
prednisona) em portadores de doença mais leve não é tão clara. A cirrose se desenvolve em
49% em 15 anos e a mortalidade em 10 anos é de 10%. Com essa evolução mais
lenta, o custo-benefício do tratamento deve ser bem avaliado. Mudanças
cosméticas (espinhas, aumento de peso) ocorrem em 80% dos pacientes em 1 ano
de tratamento. O risco de câncer (fora do fígado) com a corticoterapia é
1,4 vezes o normal.
Indicações de tratamento
Consideramos como indicações absolutas de tratamento (onde ele é necessário):
-
sintomas incapacitantes,
especialmente fadiga e artralgia severas;
-
AST constantemente acima de 10 vezes
e gamaglobulinas acima de 2 vezes o normal (situação onde, se
não tratada, está relacionada a mortalidade de 60% em 6 meses);
-
necrose em ponte ou
multilobular na biópsia, que progride para cirrose em 82% dos pacientes não
tratados e uma mortalidade de 45% em 5 anos.
Consideramos como indicações relativas (aonde ele possivelmente é necessário):
Em pacientes assintomáticos com doença leve, deve ser levada em consideração a
possibilidade de 12% de resolução espontânea da atividade da doença, mas essa
possibilidade aumenta para 63%, e mais rápida, com o tratamento. Por outro lado,
a freqüência de 14% de efeitos colaterais sérios dificulta a decisão de tratar
casos mais leves cuja doença pode se resolver sozinha em um número considerável
de casos.
|
Indicações
de Tratamento |
|
Absolutas |
Relativas |
Nenhuma
(ou contraindicado) |
|
AST constantemente acima de 10 vezes o normal |
Sintomas leves a moderados (fadiga, icterícia,
artralgia) |
Assintomático com AST e gamaglobulina normais
ou com alterações mínimas |
|
AST constantemente acima de 5 e gamaglobulinas
constantemente acima de 2 vezes o normal |
AST e gamaglobulinas
abaixo dos limites para indicação absoluta |
Cirrose inativa ou inflamação portal leve |
|
Necrose em ponte ou multiacinar |
Hepatite de interface |
Citopenia severa (leucócitos < 2.500 ou
plaquetas < 50.000) ou deficiênxia completa conhecida da atividade TPMT,
que impede o tratamento com a azatioprina |
|
Sintomas incapacitantes |
Osteopenia, instabilidade emocional,
hipertensão, diabetes ou citopenia (leucócitos < 2.500 ou plaquetas ≤
50.000) |
Compressão vertebral, psicose, diabetes
hiperlábil (brittle), hipertensão descontrolada e intolerâncias conhecidas a
prednisona e azatioprina |
Em crianças, a doença é mais
agressiva, 50% já apresentam cirrose ao diagnóstico e a associação com a
colangite esclerosante primária é alta. Como estudos mostraram que o
atraso no início do tratamento prejudica os resultados a longo prazo,
está indicado o tratamento logo que o diagnóstico é confirmado, exceto
em crianças com cirrose avançada sem sinais de inflamação ativa, ou com
contra-indicações aos medicamentos.
Monoterapia (prednisona) ou
terapia combinada (prednisona + azatioprina)
O tratamento da hepatite autoimune é iniciado com prednisona (60 mg por dia,
ou prednisolona em dose equivalente) ou prednisona (30 mg por dia) em associação com azatioprina (50 mg por dia), conforme
tabela abaixo, com redução progressiva. O tratamento combinado é preferível, pois está associado a
menor incidência de efeitos colaterais (10%) que a prednisona sozinha (44%) se
não houver contraindicações.
|
Regimes de
imunossupressão para adultos com HAI |
| |
Monoterapia |
Terapia Combinada |
|
Prednisona (mg/dia) |
Prednisona (mg/dia) |
Azatioprina |
| EUA (mg/dia) |
UE (mg/kg/dia) |
| Semana 1 |
60 |
30 |
50 |
1-2 |
| Semana 2 |
40 |
20 |
50 |
1-2 |
| Semana 3 |
30 |
15 |
50 |
1-2 |
| Semana 4 |
30 |
15 |
50 |
1-2 |
| Manutenção até endpoint |
20 ou menos |
10 |
50 |
1-2 |
| Razões para preferência |
Citopenia
Definiência da tiopurina metiltransferase
Gestação
Câncer
Tratamento curto (≤ 6 meses) |
Pós menopausa
Osteoporose
Diabetes hiperlábil (brittle)
Obesidade
Acne
Labilidade emocional
Hipertensão |
O tratamento é mantido até remissão ("cura") clínica, bioquímica e
histológica, toxicidade pelas drogas, falência do tratamento ou
inabilidade de remissão após 3 anos de tratamento (resposta incompleta).
Mesmo após a normalização dos exames laboratoriais, a melhora
histológica pode demorar mais 3 a 6 meses, portanto á necessária uma
biópsia para avaliar a melhora histológica antes de interromper o
tratamento, diminuindo os riscos de reativação da doença. A retirada da
medicação também deve ser feita de forma gradual, em 6 semanas.
Medidas complementares ao tratamento imunossupressor visam reduzir as
complicações do mesmo. Pacientes em uso de prednisona devem ser monitorados
quanto a diabetes, catarata, glaucoma e osteoporose, receber aconselhamento para
manter o peso, complementação de vitamina D e cálcio se necessários e, se
possível, vacinação para os vírus das hepatites A e B antes do início do
tratamento. Pacientes em uso de azatioprina devem ser aconselhados quanto a
anticoncepção e ser monitorizados para leucopenia e trombocitopenia (redução de
leucócitos e plaquetas).
|
Regimes de tratamento da
HAI em crianças |
| Inicial |
Manutenção |
Endpoint |
| Prednisona 1-2 mg/kg/dia (até 60 mg/dia)
por duas semanas isoladamente ou em combinação com azatioprina 1-2
mg/kg/dia |
Redução gradual da prednisona ao
longo de 6-8 semanas até 0,1-0,2 mg/kg/dia ou 5 mg/dia |
Testes de lesão hepática normais por
1-2 anos |
| |
Manter dose constante de azatioprina |
Ausência de reativação durante o
intervalo |
| |
Manter a dose de prednisona com ou
sem azatioprina ou mudar para prednisona para dias alternados (em
dose de acordo com a resposta) com ou sem azatioprina |
Ausência de inflamação na biópsia
hepática |
Em crianças não há um regime amplamente aceito, com protocolos que variam de
acordo com os centros. Pelas complicações a longo prazo da corticoterapia em
crianças, tanto estéticas quanto no crescimento e desenvolvimento ósseo, é
recomendada o tratamento combinado com azatioprina ou 6-mercaptopurina (1,5 mg/kg/dia).
|
Efeitos colaterais do
tratamento |
|
Prednisona |
Azatioprina |
Cosméticos (face arredondada, giba,
ganho de peso, acne, alopécia e hirsutismo facial), geralmente leves
Osteopenia
Diabetes hiperlábil (brittle)
Psicose
|
80% dos pacientes em 2 anos de
tratamento |
Hematológicos leves (citopenia) |
46%, especialmente em cirróticos |
| Somáticos (instabilidade emocional,
intolerância a glicose, catarata), geralmente leves |
|
Hematológicos graves (leucopenia,
trombocitopenia) |
6%, indicam suspensão do tratamento |
| Somáticos severos (osteopenia,
compressão vertebral, diabetes frágil, psicose, hipertensão lábil) |
13%, indicam suspensão do tratamento |
Somáticos (náusea, vômitos, febre,
artralgia, erupções cutâneas), geralmente leves |
5% |
| Inflamatórios / neoplásicos
(pancreatite, infecções oportunistas, câncer) |
raros |
Neoplásicos (não hepatocíticos) |
3% após 10 anos |
| |
|
Hematológicos / entéricos (supressão
da medula óssea, má absorção, atrofia vilosa) |
raros, indicam suspensão do
tratamento |
| |
|
Teratogenicidade durante gravidez |
raro (teórico) |
Tratamento em situações
especiais
-
cirróticos: o risco de efeitos colaterais é maior do que em não cirróticos
(25% contra 8%), especialmente citopenia relacionada à azatioprina;
-
gestação: a maioria dos estudos mostra que os medicamentos são bem tolerados
tanto pela mãe quanto pelo bebê; embora exista o risco teórico de
malformações pela azatioprina por estudos em ratas, nenhum caso de teratogenicidade ou de complicações relacionadas à amamentação foi descrito
em humanos; o maior risco relacionado à HAI é o parto prematuro, em
proporção semelhante à de outras doenças crônicas; o risco de complicações
na gestação é de cerca de 26% (sérias em 9%), com maternidade materna de 3%
e fetal de 4%; por esses motivos, o aconselhamento sobre métodos
anticoncepcionais deve ser oferecido, especialmente para mulheres com
hipertensão portal pelo risco de sangramento de
varizes esofágicas durante a gestação; tipicamente, pode haver redução
da atividade da doença durante a gravidez (o que pode permitir a redução ou
suspensão do tratamento), com reativação após o parto (em 12-86% dos casos),
sendo indicado reiniciar (se suspenso) o tratamento 2 semanas antes do
parto, com monitorização mais freqüente até 3 meses após o final da gravidez
-
idosos: 23% dos portadores de hepatite
autoimune nos EUA têm mais de 60 anos; nessa faixa etária, a doença
tipicamente apresenta-se já com cirrose (33%), mas evolui mais lentamente e
responde melhor e mais rápida ao tratamento, com menor índice de falência do
tratamento. A HAI freqüentemente está associada a tireoidopatias e doenças
reumáticas (e deve ser investigada em idosos portadores desses problemas) e,
nessa faixa etária, a maior preocupação em relação ao tratamento é evitar a
osteopenia decorrente da corticoterapia isolada. O regime de tratamento
preferido é o combinado (prednisona + azatioprina) e pode-se considerar a
retirada após 12 meses de remissão.
-
pacientes com baixa atividade da tiopurina metiltransferase: apenas 0,3% a
0,5% apresenta deficiência severa dessa enzima, que predispõe a citopenias
graves durante o tratamento com azatioprina; não há indicação de pesquisar
essa deficiência antes do tratamento, mas deve ser suspeitada se houver
citopenia antes do tratamento não relacionada a hipertensão portal (hiperesplenismo),
citopenia durante ou se for indicado tratamento com altas doses de
azatioprina (> 150 mg/dia).
Endpoints do tratamento e cursos de ação
Não há um tempo mínimo ou máximo para o tratamento de adultos - ele é geralmente mantido até remissão (controle da doença
com ausência de atividade da hepatite), falência de tratamento, resposta
incompleta ou efeitos colaterais dos medicamentos. Mais de 90% dos adultos
apresentam melhora laboratorial durante as primeiras 2 semanas de tratamento,
embora a normalização completa (remissão) dificilmente seja atingida em menos de
12 meses (média de 18 a 24 meses). A melhora histológica demora 3 a 8 meses a
mais que a clínica e laboratorial.
|
Endpoints e alternativas
de tratamento em situações especiais |
|
Situação |
Critérios |
Opções |
|
Remissão |
Desaparecimento dos sintomas, normalização
das transaminases, bilirrubinas e gamaglobulina, tecido hepático normal
ou cirrose inativa |
Retirada gradual da prednisona em 6 semanas
AST, ALT, bilirrubina total e gamaglobulina séricas a cada 3 semanas
durante a retirada, 3 meses após, a cada 6 meses no ano seguinte e
anualmente após |
|
Falência de tratamento (9%) |
Piora clínica, laboratorial e histológica
apesar da aderência ao tratamento após 6 a 6 semanas
Desenvolvimento de icterícia, ascite ou
encefalopatia hepática |
Prednisona 60 mg/dia ou prednisona 30 mg +
azatioprina 150 mg por pelo menos 1 mês
Redução da dose da prednisona em 10 mg e da azatioprina em 50 mg a cada
mês até a dose
convencional apenas se houver melhora
Considerar transplante hepático se houver cirrose com suas complicações |
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Resposta incompleta (13%) |
Alguma ou nenhuma melhora clínica,
laboratorial e histológica apesar de aderência ao tratamento por 2 a 3
anos
Ausência de piora |
Redução na dose da prednisona em 2,5 mg/dia
até a menor dose possível (≤ 10 mg/dia) para prevenir piora das
transaminases
Azatioprina indefinidamente (2 mg/kg/dia) como alternativa de tratamento
na intolerância aos corticosteróides |
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Toxicidade medicamentosa (13%) |
Desenvolvimento de anormalidades cosméticas
intoleráveis, osteopenia sintomática, instabilidade emocional,
hipertensão de difícil controle, diabetes frágil ou citopenia
progressiva |
Redução da dose ou suspensão do medicamento
responsável
Manutenção do medicamento tolerado em dose ajustada |
Se o tratamento está sendo bem tolerado, sem efeitos colaterais sérios, o ideal
é que seja retirado somente após a normalização dos exames laboratoriais. Quando
a medicação é retirada antes disso, há um risco 3 a 11 vezes maior de recidiva
da atividade da doença. Para reduzir esse risco, o ideal é manter o tratamento
até a normalização histológica, que ocorre geralmente após 2 anos.
Como a causa da HAI é o distúrbio do sistema imunológico, as
recidivas (recaídas) são comuns, ocorrendo
em 80% dos pacientes que atingiram remissão (a tendência à recidiva, como já
visto, faz parte dos critérios para o diagnóstico definitivo de HAI). Define-se
a recidiva como um aumento no AST além de 3 vezes o normal ou de gamaglobulina
acima de 2 vezes, após período de remissão. Essas alterações estão
invariavelmente relacionadas a hepatite de interface na histologia hepática, por
isso não há necessidade de biópsia nessa situação. Múltiplas recidivas estão
relacionadas a um maior risco de desenvolvimento de cirrose (38%, contra 4% nos
com remissão após o primeiro tratamento). O tratamento indicado para a recidiva
é a reintrodução de prednisona e azatioprina até nova remissão, seguido de
retirada gradual da prednisona e aumento gradual da azatioprina até 2 mg/kg/d,
mantendo-se essa medicação indefinidamente. Com esse regime, 87% dos pacientes
mantém remissão. Outra estratégia possível é a reintrodução de prednisona e a
manutenção desta na menor dose possível para manter o AST normal ou aumentado
menos de 3 vezes o limite da normalidade (87% dos pacientes conseguem ser
mantidos assim com 10 mg/dia ou menos). É possível, em casos selecionados,
tentar novamente a retirada da medicação após 24 meses de remissão.
Outros medicamentos
No caso da falência de tratamento de resgate (prednisona 60 mg/dia ou prednisona
30mg/dia + azatioprina 150 mg/dia), outras opções (ainda não testadas
adequadamente, mas com resultados promissores) incluem o mofetil micofenolato (cellcept®),
ciclosporina, tacrolimus, 6-mercaptopurina e metotrexate, sendo que o primeiro é
o que apresentou melhor resultado nos estudos.
O mofetil micofenolato (ou micofenolato de
mofetil, 2 g/dia) leva a melhora em 39% a 84% dos pacientes que o toleram.
Infelizmente, 34% a 78% dos pacientes precisam suspender o tratamento pelos
efeitos colaterais (náusea, vômitos, pancreatite, erupções cutâneas, alopécia,
trombose venosa profunda e diarréia), além dos casos de falência desse
tratamento.
Transplante hepático
A HAI é responsável por 2% a 3% dos transplantes hepáticos em crianças e 4% a 6%
em adultos nos EUA e Europa. As indicações para transplante são o início dos
sintomas já com insuficiência hepática, cirrose com
MELD ≥ 15 e presença de
hepatocarcinoma dentro dos critérios para
transplante. O transplante na HAI tem boas taxas de sucesso, com sobrevida em 5
e 10 anos de aproximadamente 75%.
Como a causa da HAI está no sistema imunológico, não no fígado, existe a
possibilidade de recidiva da doença no fígado transplantado, o que ocorre em
cerca de 30% dos pacientes adultos e crianças em uma média de 4,6 anos. O
diagnóstico é feito pelos achados histológicos, aumento de transaminases e
gamaglobulinas, persistência dos autoanticorpos e a exclusão de outras causas.
Geralmente o aumento da dose dos imunossupressores utilizados no pós transplante
(prednisona e tacrolimus ou ciclosporina), a substituição dos mesmos, a
reintrodução da azatioprina ou a introdução de mofetil micofenolato permitem a
remissão da doença.
Perspectivas futuras
À medida em que a nossa compreensão dos mecanismos da doença progride,
descobrimos novos pontos no processo de fisiopatogenia (mecanismo da doença) da
HAI onde seria possível interromper o seu curso, ou curá-la completamente, sem a
necessidade de medicamentos para inibir todo o sistema imunológico, com todas as
suas complicações. Atualmente, os tratamentos mais promissores nesse sentido são
o transplante de células tronco autólogas e mesenquimais, transferência adotiva
de células T regulatórias, manipulação de citocinas, supressão de genes,
bloqueio de autoantígenos, imunossupressores recombinantes, esquemas orais de
tolerância e vacinação de células T. Nenhum desses tratamentos está, no momento,
em fases de uso clínico - somente após estudos bem conduzidos saberemos se são
seguros e eficazes para uso na HAI. Só então novos estudos poderão determinar em
que situações substituirão o tratamento atual.
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Artigo criado
em: 2002
Última revisão: 02/04/11
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