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Dr. Stéfano Gonçalves Jorge
Introdução
O hepatocarcinoma (ou carcinoma hepatocelular -
CHC) é o câncer primário do fígado, ou seja, o câncer derivado das
principais células do fígado - os hepatócitos. Como os demais cânceres, surge
quando há uma mutação nos genes de uma célula que a faz se multiplicar
desordenadamente. Essa mutação pode ser causada por algum agente externo (como o
vírus da hepatite B) ou pelo excesso de
multiplicações das células (como a regeneração crônica nas
hepatites), o que aumenta o risco de surgimento de
erros na duplicação dos genes. O hepatocarcinoma é caracteristicamente
agressivo, com altíssimo índice de óbito após o início dos sintomas (icterícia,
ascite e outros). Se for detectado apenas na fase
sintomática, o paciente tem expectativa de vida média inferior a um mês se não
for realizado nenhum tratamento, sendo que nessa fase os tratamentos disponíveis
são limitados e pouco eficazes.

Fígado cortado mostrando hepatocarcinoma cortado ao meio
Há
diversas estratégias para reduzir a mortalidade pelo CHC:
-
profilaxia primária - o melhor modo de reduzir a mortalidade pelo
hepatocarcinoma é prevenir os fatores de risco para o seu surgimento; a
vacinação contra a hepatite B, de
fato, foi a primeira vacina que comprovadamente reduziu a incidência de
câncer na população;
-
profilaxia secundária - uma segunda estratégia é identificar e tratar se
possível os portadores de fatores de risco; há evidências, por exemplo, de
que o tratamento da hepatite C com
interferon reduz o risco de
surgimento do CHC;
-
profilaxia terciária - identificados os portadores de fatores de risco,
realizar o rastreamento periódico dos mesmos, para a detecção precoce da
doença e a realização de tratamentos mais efetivos;
-
tratamento - diversas modalidades de tratamento estão disponíveis
atualmente, cada uma indicada para uma situação específica.
EPIDEMIOLOGIA
O
hepatocarcinoma é, atualmente, o quinto câncer mais comum em homens e o oitavo
em mulheres. Globalmente, a incidência anual é de 560.000 novos casos ao ano. Sua incidência é maior em países com maior
incidência de fatores de risco - como na Ásia pela altíssima incidência de
hepatite B. Com a redução na incidência da hepatite B pela vacinação em massa
nos países mais afetados, a incidência está diminuindo. No entanto, graças à
epidemia global de hepatite C nas últimas décadas, associada à epidemia de
esteato-hepatite não alcoólica (associada a
obesidade), a incidência está aumentando no Ocidente. É mais comum em homens,
independente da etnia, na proporção de 4:1, entre a 8a. e 9a. décadas de vida,
observando-se recentemente redução progressiva da idade média, interpretada como
secundária ao aumento proporcional da doença em portadores de hepatite C.
|
Pessoas
com maior risco de cirrose
|
|
Fatores
de Risco |
Doenças
Hepáticas Associadas |
|
História
familiar |
Hemocromatose,
doença de Wilson, deficiência de a
1-antitripsina, fibrose cística,
talassemia |
|
Etilismo
(geralmente > 50g/dia) |
Lesões
hepáticas causadas pelo álcool (cirrose, esteatose, hepatite
alcoólica) |
|
Hiperlipidemia,
diabetes, obesidade |
Esteatose
hepática |
|
Transfusão
sangüínea |
Hepatites
B e C |
|
Doenças
autoimunes |
Hepatite
autoimune, cirrose biliar primária |
|
Medicações |
Hepatopatias
induzidas por drogas |
|
Exposições
parenterais (drogadição, profissionais de saúde) |
Hepatites
B e C |
|
Homossexualismo
masculino |
Hepatite
B |
|
Colite
ulcerativa |
Colangite
esclerosante primária |
|
História
de icterícia ou hepatite |
Hepatites
virais crônicas ou autoimune, cirrose |
|
Cirurgia
hepatobiliar |
Estenose
dos ductos biliares |
A
cirrose hepática, independente da causa, é o
principal fator de risco para o surgimento do CHC. Considera-se que o portador
de cirrose compensada (sem sintomas, Child-Pugh A) tem
um risco de desenvolver CHC de cerca de 5% ao ano. Esse risco subiria
para 10% e 15% nos estágios de Child-Pugh B e C, respectivamente. Situações
específicas na evolução da cirrose estão associadas a uma maior incidência de
CHC - na hemorragia por varizes esofágicas, 15%; na
peritonite bacteriana espontânea, 20%.

Hepatocarcinoma
demonstrado ao ultra-som (cortesia do Prof. Dr. Jazon Romilson de
Souza Almeida)
Doenças onde há alteração no DNA dos hepatócitos podem predispor ao aparecimento
do CHC mesmo na ausência de cirrose. O vírus da hepatite B, por ser um vírus
tipo DNA, integra seu material genético ao do hepatócito do hospedeiro, podendo
predispor ao aparecimento de mutações que levam ao CHC. A aflatoxina, uma toxina
que pode estar presente em amendoins contaminados por fungos do gênero
Aspergillus, pode levar a mutação no códon 249 do gene p53, levando ao
surgimento do hepatocarcinoma.
SINTOMAS
Os
sintomas do hepatocarcinoma não são específicos, e estão relacionados mais diretamente ao
comprometimento da função do fígado e geralmente já indicam a presença de câncer
avançado: dor abdominal (entre 40 e 60%, que pode corresponder a
peritonite bacteriana espontânea), tumoração
palpável no abdome à direita, distensão, falta de apetite, icterícia,
ascite, emagrecimento, mal-estar, sonolência (por
encefalopatia hepática) e hemorragia
digestiva.
|
Sintomas
mais freqüentes no hepatocarcinoma (Japão) |
|
Sintoma |
% |
|
Mal-estar
geral |
60,5 |
|
Dor
abdominal |
46,2 |
|
Sensação
de abdome cheio |
44,9 |
|
Perda
do apetite |
44,7 |
|
Perda
de peso |
28,9 |
|
Ascite
(acúmulo de líquido no abdome) |
26,5 |
|
Tumor
palpável |
23,3 |
|
Inchaço
nas pernas |
16,8 |
|
Icterícia
(pele e olhos amarelados) |
16,7 |
|
Febre |
16,7 |
|
Náusea
e vômitos |
15,6 |
|
Vômitos
ou fezes com sangue |
7,6 |
FISIOPATOGENIA E HISTÓRIA NATURAL
A
história natural do hepatocarcinoma é relativamente bem conhecida. No fígado
cirrótico, a lesão surge a partir de um nódulo de regeneração, que evolui com o
aparecimento de displasia (alteração na maturação e formato das células) e
depois de células cancerosas propriamente ditas. Como grande parte dos tumores
sólidos, a velocidade do seu crescimento é mais ou menos constante, dobrando o
seu volume entre 4 e 6 meses (entre 27 e 605 dias).
O
hepatocarcinoma pode apresentar 4 graus de diferenciação (classificação de
Edmonson e Steiner, 1954) e 5 tipos histológicos diferentes:
-
carcinoma
hepatocelular esclerosante;
-
carcinoma
fibrolamelar (que apresenta maior facilidade para extração cirúrgica,
portanto melhor prognóstico);
-
carcinoma
colangiocelular;
-
hepatocolangiocarcinoma;
-
hepatoblastoma (mais comum em crianças).

Hepatocarcinoma fibrolamelar
Escores
prognósticos
Classificação
de Child-Pugh
|
Classificação
de Child-Pugh1 |
|
Encefalopatia
hepática2 |
ausente |
1-2 |
3-4 |
|
Ascite |
ausente |
leve |
moderada/severa |
|
Albumina |
> 3,5 |
2,8-3,5 |
< 2,8 |
|
Bilirrubina
total3 |
< 2,0 |
2,0-3,0 |
> 3,0 |
|
Tempo de
protrombina4 |
1-4 |
4-6 |
> 6 |
|
Pontos: |
1 |
2 |
3 |
|
A: 5-6 pontos |
B: 7-9 pontos |
C: 10-15 pontos |
Notas:
1soma-se os pontos para cada um dos cinco itens; 2classificação
de West Haven; 3na cirrose biliar primária, utilizar os
seguintes valores de bilirrubina total: 1-4 (1 ponto), 4-10 (2 pontos) e > 10
(3 pontos); 4segundos após o controle - é possível também
utilizar o valor de RNI: < 1,7 (1 ponto), 1,7-2,3 (2 pontos) e > 2,3 (3
pontos)
-
a
classificação, no entanto, tem sido utilizada por décadas na prática
hepatológica como um modo de classificar, ainda que de modo grosseiro, o
paciente cirrótico em três estágios (A, B e C), com grau progressivo de
complicações da cirrose;
-
mesmo
assim, a classificação de Child-Pugh é incapaz de prever o prognóstico
(expectativa de vida), com um mínimo de precisão, quando avaliada
individualmente; a tendência atual é a de utilizar a classificação de
MELD/PELD e abandonar a de Child-Pugh.
Classificação
de Okuda
-
a
classificação de Okuda (1985) tem como objetivo prever a média de
sobrevida de pacientes com hepatocarcinoma não submetidos a qualquer tipo
de tratamento minimamente eficaz (incluindo ausência de tratamento e a
utilização de tratamentos "tradicionais" com ervas), de
submetidos a tratamento clínico e a hepatectomia;
|
|
Tamanho do tumor |
Ascite |
Albumina |
Bilirrubina |
|
Estágio |
> 50% (+) |
< 50% (-) |
(+) |
(-) |
< 3 g/dL (+) |
> 3 g/dL (-) |
> 3 mg/dL (+) |
< 3 mg/dL (-) |
|
I |
(-) |
(-) |
(-) |
(-) |
|
II |
1 ou 2 (+) |
|
III |
3 ou 4 (+) |
-
com base em
apenas quatro parâmetros relativamente simples e objetivos (apesar da
proporção do tumor em relação ao tamanho total do fígado algumas vezes
ser difícil de definir se seria maior ou menor de 50%), é definido o
estágio do tumor, com o seu devido prognóstico estimado em semanas:
|
Estágio |
Não tratados |
Tratamento clínico |
Hepatectomia |
|
I |
8,3 |
9,4 |
25,6 |
|
II |
2,0 |
3,5 |
12,2 |
|
III |
0,7 |
1,6 |
|
|
Média |
1,6 |
|
|
-
a primeira
grande ressalva em relação a esta classificação é que os tratamentos
clínicos evoluíram muito desde então, com o surgimento de novos agentes
quimioterápicos e o aprimoramento das técnicas de quimioembolização e de
tratamentos percutâneos (com álcool, microondas, etc.); as técnicas de
hepatectomia também se desenvolveram, com o auxílio de novos instrumentos
como os bisturis de argônio e Yag-laser - mesmo assim, a classificação
mantém a sua importância em relação à previsão de prognóstico sem
tratamento como base de comparação com os tratamentos disponíveis;
-
deve-se
ressaltar que qualquer estimativa de prognóstico refere-se à média
observada em pacientes em situação semelhante, não servindo para definir
tempo de vida de um paciente individual.
Cancer of the
Liver Italian Program (CLIP)
-
é uma
classificação que engloba a classificação de Child-Pugh, que avalia a função
hepática, a fração de fígado acometido (como na classificação de Okuda), o
nível sérico de alfa-fetoproteína e um outro fator importante, a infiltração
pelo câncer dos vasos hepáticos, especialmente a veia porta;
|
CLIP |
| |
0 pontos |
1 ponto |
2 pontos |
| Child-Pugh |
A |
B |
C |
| Morfologia |
Uninodular; < 50%
órgão |
Multinodular; < 50%
órgão |
Multinodular; > 50%
órgão |
| Alfa-fetoproteína |
< 400 ng/dL |
> 400 ng/mL |
- |
| Invasão vascular macroscópica |
Não |
Sim |
- |
|
Sobrevida segundo
pontuação CLIP |
| |
0 |
1 |
2 |
3 |
4 |
5 |
6 |
| Sobrevida em 1 ano |
92% |
80% |
52% |
37% |
4% |
0% |
0% |
| Sobrevida mediana (em meses) |
42 |
32 |
16,5 |
4,5 |
2,5 |
1 |
1 |
-
mais uma vez,
deve-se
ressaltar que qualquer estimativa de prognóstico refere-se à média
observada em pacientes em situação semelhante, não servindo para definir
tempo de vida de um paciente individual.
DIAGNÓSTICO
O
diagnóstico do hepatocarcinoma pode ser feito através de exames de imagem,
marcadores tumorais (exame de sangue) e anátomo-patológico (biópsia). Como nem
sempre há aumento dos marcadores tumorais e a realização de biópsia pode não ser
possível (pela deficiência de coagulação da insuficiência hepática, ascite ou
por dificuldade de acesso pela localização do tumor) ou recomendável (há risco
teórico, por relatos anedóticos, de disseminação do tumor pelo trajeto da
agulha), o diagnóstico do hepatocarcinoma pode ser fechado pela presença de
exame de imagem com lesão típica e aumento em marcador tumoral ou pela presença
de imagem típica em duas modalidades diferentes de exame de imagem.

Hepatocarcinoma
pequeno ao ultra-som (cortesia de Prof. Dr. Jazon Romilson de Souza Almeida)
A
ultrassonografia (ecografia) é um
exame simples, barato, não invasivo, facilmente disponível e capaz de avaliar
adequadamente o fígado em todo o seu volume. É considerado o exame de imagem de
escolha para o fígado para avaliações periódicas de rotina, sendo capaz de
detectar lesões pequenas. Infelizmente, a ultrassonografia é limitada por dois
fatores importantes. O primeiro é que é um exame operador-dependente, ou seja, é
um ótimo exame se realizado por médico experiente em avaliação de lesões
hepáticas (que pode detectar lesões menores e até estratificar o grau de fibrose
hepática com confiabilidade comparável à biópsia), mas praticamente inútil se
não (não é incomum receber laudos de "fígado normal" em pacientes portadores de
cirrose avançada). O segundo é que em fígados muito reduzidos e com nódulos de
regeneração (comum em portadores de cirrose alcoólica avançada), diferenciar um
nódulo potencialmente maligno de um fígado repleto de nódulos benignos é muito
difícil - nestes casos, estaria indicada a tomografia computadorizada. A
possibilidade de utilizar a ultrassonografia com tecnologia de doppler,
power doppler ou com contraste aumenta a sensibilidade (capacidade de
detecção) e especificidade (capacidade de diferenciar nódulos benignos de
malignos) do exame. Também permitem a identificar a presença de invasão
vascular, importante para a avaliação prognóstica e definição de possibilidades
de tratamento.

Hepatocarcinoma
demonstrado por ultra-som e aspecto característico dos vasos nutridores ao
power doppler (cortesia de Prof. Dr. Jazon Romilson de Souza Almeida)
Os
exames de tomografia computadorizada e de
ressonância nuclear magnética, especialmente e
segundo, são mais caros e de difícil acesso, além de precisarem da aplicação de
medicação (contraste) por via oral e/ou endovenosa, o que pode ser
contra-indicado em pacientes alérgicos. No entanto, são exames menos dependentes
do operador e capazes de detectar lesões pouco menores e diferenciar com maior
segurança nódulos malignos de nódulos benignos de regeneração.

Hepatocarcinoma
avançado (setas), ocupando o lobo esquerdo do fígado, em tomografia computadorizada.
Outros exames de imagem são indicados em situações específicas. A
arteriografia, exame onde é introduzido
cateter através da artéria femoral até o interior do fígado, permite a avaliação
direta da região hipervascularizada (com alta concentração de vasos sanguíneos)
arterial característica do hepatocarcinoma. Através da arteriografia, é possível
a aplicação de agente quimioterápico diretamente no tumor, seguida da aplicação
de agente embolizante para que ocorra obstrução do ramo arterial que nutre o
tumor (esse é um dos tratamentos paliativos da hepatocarcinoma, denominado
quimioembolização).

A
mesma lesão demonstrada por angiografia digital (setas)
A
alfa-fetoproteína
|
Diagnóstico diferencial do
hepatocarcinoma |
|
Doença |
Características |
Investigação |
|
Câncer metastático |
Lesões múltiplas, sem cirrose, AFP normal, sem invasão portal |
Marcadores oncofetais, biópsia, CT, angiografia |
|
Colangiocarcinoma |
Sem cirrose, massa hipovascular, AFP normal, sem invasão portal |
Marcadores oncofetais, biópsia, CT, angiografia |
|
Angiossarcoma |
Exposição a thorotrast, sem cirrose, AFP normal, perda de contraste,
metástases extra-hepáticas precoces |
Marcadores oncofetais, CT, angiografia, biópsia |
|
Adenoma,
hiperplasia nodular focal |
Uso de MACO, sem cirrose, AFP normal, hipervascular, sem invasão
portal |
Marcadores oncofetais, biópsia, CT, angiografia |
|
Hemangioma |
AFP normal, sem invasão portal, contraste periférico lento |
Marcadores oncofetais, CT dinâmico, RNM, angiografia |
|
Abscesso hepático |
Febre alta, leucocitose, AFP normal, sem invasão portal, interior
hipodenso, conteúdo purulento |
Marcadores oncofetais, CT, US, aspiração |
Alfafetoproteína
-
Baixa sensibilidade – 45-64%
-
Valores abaixo de 20 ng/dL – VPN > 90%
-
É considerado específico se > 400 ng/dL
-
Valores entre 20-400 – população com
odds ratio 14 para
hepatocarcinoma
Métodos de imagem – sensibilidade (Rizzi, 1994)

texto em revisão
SCREENING
Programas de screening (OMS)
-
A doença deve ser comum
-
A população de risco deve ser bem definida
-
Método diagnóstico não invasivo eficiente
-
A história natural deve ser bem estabelecida
-
Deve haver terapia radical efetiva
-
Boa taxa custo-benefício
TRATAMENTO
A melhor opção, apesar de muito agressiva, ainda é o transplante do fígado,
onde o órgão doente é substituído por outro sadio. Outra opção é a hepatectomia, cirurgia onde é retirada a porção do fígado onde está
localizado o tumor.
Uma
terceira opção, muito utilizada pelos japoneses e que aos poucos vem se
tornando difundida pelo mundo é o tratamento percutâneo (pela pele) do
tumor. Nessa modalidade terapêutica, o tumor é destruído sem a necessidade de
cirurgia. A injeção percutânea de etanol (PEI) é um método simples,
realizado sob anestesia local e com raras complicações. Com o auxílio do
ultra-som, é introduzida uma agulha especial no centro do tumor, através da
pele, onde é administrado álcool absoluto (a 100%), provocando a
destruição do câncer. Outro método é a introdução de uma agulha que emite
microondas ou radiofrequência no centro da lesão, com efeito semelhante. Apesar de simples,
rápido e seguro, o tratamento percutâneo não é tão eficaz quanto o
cirúrgico, podendo ser utilizado antes da cirurgia ou em pessoas que não
possam ou não aceitem a cirurgia.
Um outro tratamento, cada vez mais utilizado como paliativo,é a quimioembolização da
lesão (ver artigo específico aqui).
|
ESTADIAMENTO AJCC,
2002
Tumor primário (T). TX: tumor primário não pode ser avaliado; T0:
sem evidência de tumor primário; T1: tumor solitário sem invasão
vascular; T2: tumor solitário com invasão vascular ou múltiplos
tumores, sendo nenhum > 5 cm; T3: múltiplos tumores > 5 cm ou tumor
envolvendo ramo maior da veia porta ou veia hepática; T4: invasão
direta de órgãos adjacentes (exceto vesícula biliar) ou perfuração
do peritônio visceral. Linfonodos regionais (N). NX: linfonodos
regionais não podem ser avaliados; N0: ausência de metástases em
linfonodos regionais; N1: presença de metástases em linfonodos
regionais. Metástases distantes (M). MX: metástases a distância não
podem ser avaliadas; M0: ausência de metástases a distância; M1:
metástases a distância.
Agrupamento (TNM)
Estádio I: T1N0M0; Estádio II: T2N0M0; Estádio IIIA: T3N0M0; Estádio
IIIB: T4N0M0; Estádio IIIC: qqTN1M0; Estádio IV: qqTqqNM1.
COMO ESTADIAR
Recomendação. Hemograma, provas de função hepática (incluindo
desidrogenase láctica [DHL] e albumina), coagulograma,
alfafetoproteína (AFP), sorologia para hepatites B e C, endoscopia
digestiva alta, tomografia computadorizada (TC) e ressonância
nuclear magnética (RNM) do abdome e/ou ultrassonografia (US)
hepática com contraste (se disponível).
Nota. A RNM define melhor o volume tumoral caso o paciente necessite
de planejamento cirúrgico ou radioterápico, sendo, portanto,
complementar à TC helicoidal nesses casos. Nos pacientes com lesões
suspeitas de hepatocarcinoma (HCC), o uso de TC helicoidal
multifásica aumenta a sensibilidade de detecção em até 98%, sendo
bastante dependente da técnica usada (fase arterial, portal e fase
pós-contraste) [Radiology 226:543, 2003; Radiology 226:79, 2003; AJR
180:1593, 2003]. A presença de trombose da veia porta causada pelo
hepatocarcinoma é importante na decisão terapêutica e pode ser
diagnosticada pela TC, RNM e US com Doppler [AJR 165:573, 1995; AJR
168:719, 1997]. A endoscopia digestiva alta define a presença de
varizes de esôfago, sendo importante na avaliação de hipertensão
portal e do risco de hemorragia digestiva alta. A biópsia nos
pacientes com imagem típica e elevação de AFP ≥ 400 ng/mL não é
absolutamente necessária, já que esses achados são considerados
patognomônicos da doença. Entretanto, a biópsia nos pacientes com
AFP ≤ 100 ng/mL e lesões menores de 3 cm deve ser considerada com
cautela, pois os índices falsos-positivos são cerca de 20%, além do
risco potencial de implantação de células neoplásicas no trajeto da
agulha [Ann Surg 234:206, 2001]. Os métodos de imagem para avaliar
lesões pequenas (< 2 cm) conferem sensibilidade e especificidade da
ordem de 20%. Isso se deve às características de hipovascularidade
das lesões, que são comuns a nódulos de regeneração, displásicos ou
hepatocarcinoma bem diferenciado [Radiology 219:445, 2001]. Nesses
casos, arteriografia e portografia, ambas por TC, apresentam
sensibilidade bastante superior na caracterização das lesões [AJR
178:885, 2002]. A tomografia computadorizada por emissão de
pósitrons (PET-TC) tem valor bastante limitado no diagnóstico de
hepatocarcinoma, não sendo recomendada para ações de rotina [Ann
Nucl Med 14:121, 2000]. O uso de US com contraste de microbolhas
pode auxiliar no diagnóstico de lesões focais em fígado cirrótico [Eur
Radiol 17:F73, 2007].
Dica. A definição da etiologia de nódulos pequenos (geralmente < 2
cm) em fígado cirrótico é ainda bastante limitada por métodos de
imagem. Muitas vezes, a experiência de cada serviço com métodos de
imagem e a evolução do paciente são importantes na decisão
terapêutica de cada caso.
AVALIAÇÃO PROGNÓSTICA DO PACIENTE
A avaliação prognóstica dos pacientes com hepatocarcinoma é
fundamental na decisão terapêutica. As classificações prognósticas
mais comumente utilizadas são o índice de Child-Pugh (de A a C) [Br
J Surg 60:646, 1973], a classificação de Okuda (de 1 a 3) [Cancer
56:918, 1985], o índice do Cancer of the Liver Italian Program (CLIP)
(de 1 a 6) [Hepatology 28:751, 1998; Hepatology 31:840, 2000], que
incorpora as outras duas classificações anteriores, o Barcelona
Clinic Liver Cancer (BCLC de A a D) [Semin Liver Dis 19:329, 1999] e
o sistema de estratificação criado pela Mayo Clinic, chamado Mayo
End-Stage Liver Disease (MELD) [Hepatology 33:464, 2001]. O índice
de Child-Pugh leva em consideração os níveis de bilirrubina, tempo
de protrombina (TP), albumina, o grau de ascite e encefalopatia, e
divide os pacientes em três grupos distintos (A, B e C) de acordo
com a gravidade da insuficiência hepática. A classificação de BCLC
serve fundamentalmente para orientação terapêutica; ela classifica o
paciente em cinco estádios e integra as classificações de Child-Pugh,
Okuda, TNM e performance status [Lancet 362:1907, 2003]. Usaremos
essa classificação neste capítulo para recomendação terapêutica. O
sistema MELD de avaliação prognóstica, desenvolvido para pacientes
candidatos a transplante hepático, foi criado pela Mayo Clinic após
a avaliação dos seus pacientes em lista de transplante entre 1990 a
1999. Por meio desse sistema, os pacientes são posicionados na lista
conforme a gravidade de sua enfermidade [Hepatology 33:464, 2001].
Dica. A variante fibrolamelar é rara, mas apresenta melhor
prognóstico, sendo associada a tumores bem circunscritos, com 50 a
75% de ressecabilidade, pouca elevação da AFP (5% dos casos) e pouca
associação à cirrose e hepatite B [Cancer 106:1331, 2006]. Em
comparação, a variante mista ou combinada com o colangiocarcinoma
tem pior prognóstico [World J Surg 33:1916, 2009]. As classificações
prognósticas são clínicas e de fácil reprodução e utilização. Este
capítulo baseia-se fortemente nos seguintes critérios de seleção:
CHILD-PUGH:
Bilirrubina (mg/dL): 1-1,9: 1; 2-2,9: 2; > 2,9: 3
TP (RNI): < 1,7: 1; 1,7 a 2,3: 2; > 2,3: 3
Albumina (g/dL): > 3,5: 1; 2,8-3,5: 2; < 2,8: 3
Ascite: ausente: 1; pequena: 2; moderada: 3
Encefalopatia: ausente: 1; grau 1 ou 2: 2; grau 3 ou 4: 3
Soma dos pontos: 5 a 6: A; 7 a 9: B; 10 a 15: C
Sobrevida em 1 ano: A: 67%; B: 37%; C: 18%
OKUDA:
Tamanho do tumor: ≥ 50% – positivo; < 50% – negativo
Ascite: detectável – positivo; ausente – negativo
Albumina: ≤ 3 g/dL – positivo; > 3 g/dL – negativo
Bilirrubina: ≥ 3 mg/dL – positivo; < 3 mg/dL – negativo
Estádio: I: sem critério positivo; II: 1 ou 2 critérios positivos;
III: 3 ou 4 critérios positivos
Sobrevida em 1 ano: I: 82%; II: 36%; III: 14%
BCLC:
Estádio 0: tumor único < 2 cm; Child A, Okuda I
Estádio A: assintomático; tumor único < 5 cm ou três tumores < 3 cm;
Okuda I; podendo apresentar hipertensão portal ou bilirrubina
aumentada
Estádio B: assintomático; Child A-B; tumor multinodular, sem invasão
vascular ou metástase, Okuda I-II
Estádio C: sintomático, Child A-B; tumor invasivo ou metástases
linfonodais ou a distância presentes, Okuda I-II
Estádio D: sintomas importantes ou Child C ou Okuda III
Sobrevida: A: 50 a 75% em 5 anos; B: 50% em 3 anos; C: 50% em 6
meses; D: 50% < 3 meses
TRATAMENTO
Considerações gerais
O diagnóstico de hepatocarcinoma geralmente está associado à cirrose
hepática (em cerca de 80% dos casos) induzida por diferentes causas
e em diferentes fases de evolução, sendo responsável por 15% das
mortes por falência hepática [Hepatology 7:122, 1987]. A
determinação da função hepática de pacientes cirróticos e sua
evolução é o passo inicial fundamental que definirá a agressividade
do tratamento para o hepatocarcinoma. Atualmente, as únicas
estratégias terapêuticas curativas para o hepatocarcinoma são o
transplante hepático e a ressecção cirúrgica. Estratégias
radioablativas podem ser consideradas curativas em pacientes
selecionados (lesão única < 3 cm), embora seus resultados sejam
considerados inferiores aos da ressecção cirúrgica [J Hepatobiliary
Pancreat Surg 8:397, 2001], sendo, portanto, reservadas a pacientes
sem condições clínicas para cirurgia. Para transplante hepático
devem ser considerados todos os pacientes com cirrose hepática e em
condições clínicas compatíveis com doença restrita ao fígado e sem
sinais de invasão vascular macroscópica. Conforme o Critério de
Milão, pacientes com lesão única < 5 cm ou até 3 lesões de até 3 cm
são os melhores candidatos [N Engl J Med 334:693, 1996] (ver
Pacientes operáveis, doença ressecável BCLC A). É evidente que a
seleção de pacientes quanto ao risco de recorrência e risco de
morbidade/mortalidade com o procedimento é fundamental para otimizar
o uso dos poucos órgãos disponíveis, sendo a aplicação do sistema
MELD importantíssima nessa estratégia [Liver Transpl 10:36, 2004].
Recentemente foi incorporado no Brasil o sistema MELD para
priorização de pacientes na fila de espera para um órgão de doador
morto. Como a fila de transplante é longa, as estratégias para
controle temporário da doença hepática devem ser consideradas.
Favorecemos, nessa situação, ablação por radiofrequência,
alcoolização ou quimioembolização, conforme descrito a seguir. Em
pacientes com doença inicial, MELD < 8 e sem evidência de hepatite,
a ressecção cirúrgica deve ser considerada [J Gastrointest Surg
12:1699, 2008]. Pacientes cirróticos, elegíveis para transplante
hepático e que apresentam lesões ressecáveis, além de critérios
clínicos favoráveis para ressecção (pressão da veia porta < 10 mm
Hg, ausência de trombocitopenia e função hepática preservada),
também devem ser considerados inicialmente para ressecção hepática
curativa [Semin Liver Dis 25:181, 2005; Liver Transpl 11:1242, 2005;
Ann Surg Oncol 16:1560, 2009]. A utilização de fontes alternativas
de órgãos de doadores vivos permanece controversa e deve ser
considerada apenas nos melhores candidatos. Nos pacientes com
prognóstico mais reservado, a possibilidade de transplante dominó
pode ser considerada. A idade é fator limitante para transplante
hepático, que deve ser restrito a pacientes com boa condição física
e idade inferior a 70 anos. Nos raros casos de hepatocarcinoma em
fígado não cirrótico, a ressecção cirúrgica é a melhor opção
curativa.
Pacientes operáveis, doença ressecável (BCLC 0 e A)
Recomendação. Quando a lista de espera é inferior a 6 meses,
favorece-se transplante hepático como modalidade inicial em
pacientes elegíveis, particularmente os cirróticos e os Child-Pugh
B(8/9). Considerar procedimentos de ablação por radiofrequência,
alcoolização ou quimioembolização nos pacientes listados para
transplante e que têm tempo de espera superior a 6 meses. Considerar
hepatectomia parcial com margem negativa restrita aos pacientes
Child-Pugh A e B(7) e sem hipertensão portal.
Nota. Os melhores pacientes para transplante hepático são aqueles
com cirrose hepática e tumor único < 5 cm ou até três tumores < 3
cm, sem sinais de invasão vascular ou doença extra-hepática
(Critérios de Milão – Mazzaferro). A sobrevida global (SG) desse
grupo de transplantados foi de 85% em 4 anos [N Engl J Med 334:693,
1996]. Quando comparados aos pacientes com hepatectomia parcial,
aqueles tratados com transplante hepático apresentaram SG similar em
5 anos (32 versus 31%), mas a sobrevida livre de recorrência em 5
anos foi superior (60 versus 14 a 20%) [J Hepatol 26:1274, 1997;
Hepatology 31:899, 2000]. Quando se avalia o impacto do custo do
tratamento proposto e sua eficácia, o transplante hepático é
custo-efetivo se realizado entre 6 e 12 meses de espera. Já a
ressecção hepática é custo-efetiva nos pacientes cujo transplante
tem previsão de espera de mais de 18 meses [N Engl J Med 339:380,
1998]. Recente análise do International Registry of Hepatic Tumors
in Transplant demonstrou que nos últimos 20 anos houve aumento na
taxa de cura, associada à redução da morbidade e da recorrência [Liver
Transpl 15:574, 2009]. Fatores como função hepática, tumor único ou
múltiplo e hepatite viral parecem não interferir nos resultados
observados com transplante hepático para o tratamento de
hepatocarcinoma. Já a presença de tumor > 5 cm, invasão vascular,
tumores pouco diferenciados e metástase ganglionar são fatores
preditivos negativos importantes que contraindicam transplante
hepático convencional [Ann Surg 228:479, 1998; Cancer 86:1151,
1999]. A ressecção cirúrgica inicial seguida de transplante hepático
confere a melhor estratégia de resgate para os pacientes que sofrem
recorrência e mantêm os Critérios de Milão (na recorrência) [J
Gastrointest Surg 12:1699, 2008; Ann Surg Oncol 15:1383, 2008;
Transplantation 86:641, 2008; Ann Surg Oncol 16:1560, 2009]. Os
melhores candidatos à ressecção cirúrgica exclusiva são os pacientes
Child-Pugh A, com valores normais de bilirrubina, ausência de sinais
clínicos de hipertensão portal (plaquetopenia, esplenomegalia e
varizes de esôfago), com tumor único, com diâmetro < 5 cm (sem
invasão vascular), assintomáticos e MELD < 8 [Gastroenterology
111:1018, 1996; Hepatology 30:1434, 1999; J Gastrointest Surg
12:1699, 2008]. Hiperbilirrubinemia, hipertensão portal e
deterioração clínica devem ser consideradas critérios de
inoperabilidade, apesar de o hepatocarcinoma ser ressecável [World J
Surg 29:124, 2005]. A extensão da ressecção depende da função
hepática do paciente, avaliada pelos critérios prognósticos e/ou
pelo teste da depuração de indocianina verde. Nos casos de ausência
de cirrose, até 2/3 do fígado podem ser retirados cirurgicamente. A
sobrevida em 5 anos com cirurgia é de 37 a 41% [Am J Surg 169:28,
1995; J Clin Oncol 19:3037, 2001; Ann Surg Oncol 16:1832, 2009]. Os
resultados com hepatectomia parcial em pacientes com hepatite por
vírus B ou C e cirrose (Child-Pugh A e B) ou sem cirrose são
semelhantes [J Clin Oncol 18:1094, 2000]. A recorrência tumoral nos
pacientes submetidos a hepatectomia parcial é predominantemente
hepática e em geral ocorre nos 3 primeiros anos de seguimento [Arch
Surg 129:738, 1994]. O tratamento adjuvante pós-hepatectomia parcial
continua sendo controverso [Cochrane Database Syst Rev :CD001199,
2009]. No entanto, há três estratégias ocasionalmente utilizadas: a
primeira é a administração pós-operatória de uma dose de 1.850 a
2.400 MBq (50 a 60 mCi) de lipiodol I-131 intra-arterial, com
redução da taxa de recorrência e aumento da sobrevida livre de
doença, mas com benefício duvidoso na SG em comparação com a
observação [Lancet 353:797, 1999; J Nucl Med 49:362, 2008; Ann Surg
247:43, 2008]. A segunda é o uso de interferon, que parece reduzir a
recorrência e mortalidade em 2 anos em pacientes com hepatite por
vírus C pós-hepatectomia parcial [Hepatology 32:228, 2000; Hepatol
Res 20:301, 2001; Intervirology 48:71, 2005; Br J Surg 96:975,
2009]. O uso de quimioembolização intra-hepática pós-hepatectomia
conferiu benefício em sobrevida livre de progressão (p=0,004) e SG
(p=0,048) em estudo de fase III com 115 pacientes em estádio IIIA [J
Cancer Res Clin Oncol 135:1437, 2009]. O resgate cirúrgico é uma
modalidade eficaz e deve ser considerado para pacientes com
carcinoma fibrolamelar recorrente [Cancer 106:1331, 2006] ou nos
pacientes com HCC em fígado não cirróticos [J Gastroenterol no prelo
Aug 12, 2009].
Pacientes inoperáveis, doença localizada (BCLC A)
Recomendação. Injeção percutânea de álcool (IPA) ou ablação por
radiofrequência (RFA).
Nota. IPA ou RFA guiada por US ou TC é indicada preferencialmente
para pacientes com tumores < 3 cm, menos de três tumores e na
ausência de ascite [Hepatology 16:353, 1992; Eur J Ultrasound
13:107, 2001; J Hepatol 42:535, 2005]. A sobrevida em 5 anos é de
cerca de 33% [World J Surg 19:801, 1995]. Um estudo recente comparou
102 pacientes randomizados para RFA ou IPA (n=52 e n=50,
respectivamente) e demonstrou que a sobrevida em 2 anos foi similar
em ambos os grupos (98 versus 88%, p=0,14), mas a sobrevida livre de
doença em 2 anos foi melhor no grupo de RFA (64 versus 43%, p=0,012)
[Radiology 228:235, 2003]. Esses resultados foram confirmados por
três outros estudos randomizados entre RFA e IPA [Gastroenterology
129:122, 2005; Gut 54:1151, 2005; Scand J Gastroenterol 43:727,
2008] e recentemente por metanálise [BMC Gastroenterol 9:31, 2009].
Entretanto, a IPA é preferível à RFA em lesões adjacentes a ductos
biliares (principalmente lesões localizadas no segmento IV) ou alças
intestinais devido ao risco de lesões biliares ou intestinais [Eur J
Ultrasound 13:159, 2001]. Em centros especializados, técnicas de
hidrodissecção combinadas a RFA podem ser usadas em lesões
superficiais. Embora exista um pequeno estudo prospectivo que
compare IPA versus ressecção cirúrgica apoiando seu uso em pacientes
com uma ou duas lesões de até 3 cm, não consideramos a IPA uma
modalidade curativa. Há inclusive risco de semear células tumorais e
dificuldade na localização de todos os nódulos existentes com IPA ou
RFA [Ann Surg 242:36, 2005]. O uso de radioterapia (RT) externa,
seja com fótons ou 3DCRT, parece ser uma estratégia promissora em
pacientes altamente selecionados [J Clin Oncol 23:1839, 2005; Clin
Cancer Res 11:3799, 2005; Int J Radiat Oncol Biol Phys 66:1152,
2006].
Dica. O seguimento radiológico após a RFA é difícil, devendo-se
tomar cuidado para não confundir reação inflamatória periférica com
tumor residual [Eur J Ultrasound 13:73, 2001]. A IPA e a RFA devem
ser realizadas preferencialmente em centros de referência.
Pacientes operáveis, doença irressecável (BCLC B)
Recomendação. Considerar tratamento neoadjuvante com
quimioembolização intra-arterial com lipiodol I-131 associado à
cisplatina, 50 mg e/ou doxorrubicina, 25 a 50 mg intra-arterial,
seguida de gelfoam seletivo ou, se disponível, quimioembolização
neoadjuvante utilizando microesferas carregadas com doxorrubicina.
Considerar a possibilidade de hepatectomia parcial ou transplante
hepático nos pacientes com boa resposta clínica (ver Pacientes
operáveis, doença ressecável BCLC 0 e A). Nos pacientes com risco
alto para quimioembolização ou que recusam o procedimento, pode-se
considerar sorafenibe (ver Pacientes inoperáveis, doença
irressecável, trombose de veia porta ou doença metastática BCLC C).
Nota. Nos pacientes com tumores que excedem os Critérios de Milão, o
tratamento multimodal pode ser considerado. O uso de
quimioembolização intra-hepática é eficaz na redução do tumor a fim
de torná-lo elegível para transplante em cerca de 33% dos pacientes
em estádio III, conferindo os mesmos resultados observados nos
pacientes em estádio II [Ann Surg 248:617, 2008]. Ademais, a
quimioembolização intra-hepática parece conferir melhora nos
resultados de pacientes submetidos a transplante hepático
posteriormente, em especial naqueles que apresentam mais de 85% de
necrose tumoral com o procedimento [J Nucl Med 49:362, 2008; Cancer
91:2378, 2001; Arch Surg 133:183, 1998]. Essa prática foi
incorporada no Brasil. Uma metanálise mostrou que a embolização
arterial melhora a sobrevida em 2 anos, quando comparada com terapia
de suporte, com benefício significativo para o uso de
quimioembolização com cisplatina ou doxorrubicina (nenhum benefício
foi observado com embolização arterial isolada). Como um todo, o
tratamento induziu respostas objetivas em 35% dos pacientes [Hepatology
37:429, 2003]. Um pequeno estudo randomizado de quimioembolização
versus embolização versus tratamento conservador demonstrou aumento
de sobrevida quando a quimioembolização foi comparada a tratamento
conservador (HR=0,47, IC de 95%: 0,25-0,91, p=0,025). A sobrevida em
1 e 2 anos foi de 82 e 63% para quimioembolização, 75 e 50% para
embolização, e 63 e 27% para tratamento conservador (p=0,009)
[Lancet 359:1734, 2002]. Os agentes quimioterápicos mais
frequentemente usados na quimioembolização são cisplatina, 50 mg,
doxorrubicina, 25 a 50 mg, e mitomicina C, 20 mg, sozinhos ou em
combinação com lipiodol I-131, seguido de gelfoam. Dados recentes
sugerem que o uso de nova partícula embolizante, que consiste de
microesferas carregadas com doxorrubicina, parece conferir melhores
resultados que agentes embolizantes convencionais [J Clin Oncol 27:abstr
4524, 2009; J Clin Oncol 27:abstr 4523, 2009]. Os pacientes com
maior chance de benefício são os que possuem nódulos únicos, menores
que 5 cm e sem invasão vascular [J Clin Oncol 25:abstr 4541, 2007].
A embolização utilizando materiais com radioisótopos, tais como
esferas cobertas com Ytrio 90 ou lipiodol I-131, não é considerada
padrão, mas possui opções razoáveis de tratamento em pacientes
selecionados, baseando-se apenas em estudos de fase II [Gastroenterology
no prelo Sep 17, 2009; Eur Radiol 19:951, 2009; Q J Nucl Med Mol
Imaging 53:348, 2009; J Nucl Med Mol Imaging 29:928, 2002].
Dica. A redução de pelo menos 50% nos níveis basais de AFP após
tratamento com quimioembolização está associada a benefício de
sobrevida livre de progressão e SG [J Clin Oncol no prelo Oct 5,
2009]. A quimioembolização é um procedimento de alta complexidade e
deve ser realizada apenas em centros de referência. Pacientes de
risco para o procedimento são aqueles com manipulação anterior de
vias biliares (abscesso hepático), diabetes, redução de filtração
glomerular (insuficiência renal) e trombose parcial da veia porta
(insuficiência hepática). Considerar sempre hidratação vigorosa com
SF 0,9% (superior a 100 mL/h) por pelo menos 12 h antes do
procedimento. Considerar profilaxia com quinolona ou cefalosporina
de terceira geração nos pacientes submetidos a grandes áreas de
embolização ou com manipulação anterior das vias biliares.
Favorecemos embolização superseletiva, sempre que possível.
Considerar embolização restrita a um lobo hepático por procedimento,
com intervalos não inferiores a 30 dias.
Pacientes inoperáveis, doença irressecável, trombose de veia porta
ou doença metastática (BCLC C)
Recomendação. Sorafenibe, 400 mg VO 2x/dia, até sinais evidentes de
progressão. Nos pacientes em quem o sorafenibe não está disponível,
considerar quimioterapia (QT) sistêmica ou tratamento de suporte
somente.
Nota. Em estudo de fase II com 137 pacientes, sorafenibe demonstrou
resposta objetiva em 2,2%, resposta mínima em 5,8% e estabilização
de doença por 16 semanas em 33,6% [J Clin Oncol 24:4293, 2006]. O
estudo de fase III (SHARP) com 602 pacientes confirmou benefício
significativo de aumento de SG (10,7 versus 7,9 meses, HR=0,69, IC
de 95%: 0,55-0,87, p<0,001) e sobrevida livre de progressão (5,5
versus 2,8 meses, HR=0,58, IC de 95%: 0,45-0,74, p<0,001) quando o
sorafenibe, 400 mg VO 2x/dia, foi comparado a placebo. Nesse estudo,
95% dos pacientes eram Child-Pugh A e 82% BCLC C. Os índices de
resposta objetiva confirmaram os dados do estudo de fase II, com
resposta parcial de 2,3%. Os índices de doença estável nos braços
com sorafenibe e placebo foram de 71 e 67%, respectivamente [N Engl
J Med 359:378, 2008]. Sorafenibe é a única opção de tratamento
sistêmico com ganho comprovado de sobrevida, mesmo quando estudado
em população asiática [Lancet Oncol 10:25, 2009]. É importante
salientar que o benefício do sorafenibe em pacientes com cirrose
avançada (Child-Pugh B8/B9) não está claro e, portanto, a
extrapolação dos dados deve ser cuidadosa. Os resultados do estudo
de fase II de sorafenibe em pacientes Child-Pugh B ainda não estão
disponíveis. Pequeno estudo de fase II avaliando sunitinibe em HCC
demonstrou taxa de resposta objetiva semelhante à do sorafenibe (de
apenas 2,7%) [Lancet Oncol 10:794, 2009]. O mesmo ocorreu com
lapatinibe, com taxa de resposta objetiva de 5% [Clin Cancer Res
15:5895, 2009; Cancer Chemother Pharmacol 64:777, 2009]. A QT
sistêmica não oferece vantagem de sobrevida versus terapia de
suporte [J Clin Gastroenterol 32:383, 2001; Cancer 74:2449, 1994; J
Hepatol 11:181, 1990]. Mesmo assim, nos pacientes que não tenham
acesso, ou que não possam tolerar o tratamento com sorafenibe,
pode-se considerar o uso de QT sistêmica. Doxorrubicina como agente
único ou em combinação foi a substância mais estudada. Um estudo de
fase III com 170 pacientes comparou o esquema PIAF (cisplatina,
interferon, doxorrubicina e 5-FU) com doxorrubicina isolada e não
mostrou aumento significativo de resposta (20,9 versus 10,5%) ou SG
(8,67 versus 6,83 meses) [J Natl Cancer Inst 97:1532, 2005]. Outra
opção aceitável como agente único é o uso de capecitabina, com
resposta de 11% em 37 pacientes tratados [Cancer 101:578, 2004].
Dentre as combinações analisadas, o estudo de fase II avaliando a
combinação GEMOX (gencitabina e oxaliplatina) mostrou resposta da
ordem de 20%, com boa tolerância, podendo ser usada sem necessidade
de redução de dose em pacientes ictéricos [J Clin Oncol 24:1898,
2006; Cancer 109:1384, 2007; Cancer 112:2733, 2008]. Combinações de
quimioterápicos parecem conferir maiores índices de resposta
objetiva quando comparadas a um único fármaco, mas sem benefício
evidente na sobrevida. Portanto, a combinação de quimioterápicos
deve apenas ser considerada quando se faz necessária uma resposta
rápida para controle de sintomas. Além do sorafenibe, há um número
considerável de terapias de alvo molecular em estudo neste momento,
algumas com resultados preliminares promissores como droga única ou
em combinação com agentes quimioterápicos. Dentre as diversas drogas
testadas, bevacizumabe como agente único apresentou resposta em 13%
e estabilização da doença em 6 meses de 65% em 46 pacientes tratados
[J Clin Oncol 26:2992, 2008]. A combinação de GEMOX com bevacizumabe
resultou em 20% de resposta objetiva em 33 pacientes testados [J
Clin Oncol 24:1898, 2006]; e a combinação de XELOX com bevacizumabe
resultou em 11% de resposta objetiva em 30 pacientes. Em um estudo
de fase II, a combinação de erlotinibe e bevacizumabe resultou em
taxa de resposta de 28% em 57 pacientes tratados [J Clin Oncol
27:843, 2009; J Clin Oncol 27:abstr 4522, 2009]. A combinação de
sorafenibe com doxorrubicina também demonstrou resultados
preliminares encorajadores [Eur J Cancer 45:579, 2009]. Em alguns
pacientes com doença assintomática e com comportamento indolente, a
opção por observação e suporte clínico pode ser justificada.
Dica. Deve-se restringir o uso de bevacizumabe em pacientes com
hipertensão portal e varizes esofagianas devido ao aumento de
eventos de sangramento [J Clin Oncol 26:2992, 2008]. O uso de
sorafenibe em pacientes com disfunção renal ou hepática está
associado a baixa tolerabilidade da droga. Por essa razão, sugerimos
iniciar a droga escalonando a dose nas duas primeiras semanas de
tratamento [J Clin Oncol 27:1800, 2009]. A redução de pelo menos 20%
nos níveis basais de AFP após tratamento com 2 ciclos de QT
sistêmica está associada a benefício de sobrevida livre de
progressão e SG [J Clin Oncol 27:446, 2009].
Child-Pugh C (BCLC D)
Recomendação. Suporte clínico.
Nota. Embora tenha havido redução da morbidade no transplante
hepático e esta seja a única modalidade curativa conhecida para os
pacientes com hepatocarcinoma e descompensação hepática grave, sua
utilização em pacientes com função hepática limítrofe deve ser
considerada com muita cautela. Favorecemos suporte clínico somente
para esses pacientes. Embora o sorafenibe não tenha problemas de
biodisponibilidade em pacientes com função hepática limítrofe, os
dados de segurança e benefício clínico não estão disponíveis para
esse grupo de pacientes. Por essa razão, recomendamos muita cautela
na extrapolação dos dados do estudo SHARP para pacientes com
Child-Pugh C.
ACOMPANHAMENTO DE PACIENTES DE RISCO
O hepatocarcinoma está associado a lesões hepáticas crônicas, como
hepatite por vírus B e C, alcoolismo e exposição a toxinas como a
aflatoxina, por exemplo. Em pacientes com hepatite viral ativa ou
com lesão hepática estabelecida (cirrose), a incidência de
hepatocarcinoma é de 1 a 4% ao ano. Pacientes que apresentam fatores
de risco devem ser acompanhados rotineiramente com métodos de imagem
e AFP, visando ao diagnóstico precoce do hepatocarcinoma.
|
Frederico Costa e Caio Rocha
Lima, Manual de Oncologia
Clínica 2010
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Artigo criado em:
2003
Última revisão: 03/04/11
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